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A Maldição do Tempo

Eva Chase

Atravesse o espelho e venha para o País das Maravilhas. É sensual, excitante e mortal!

Cinco passos para superar seu ex babaca:

1. Herde uma mansão da sua tia-avó reclusa.
2. Caia através de um espelho em um mundo colorido, sensual e diferente.
3. Conheça os habitantes locais irresistíveis.
4. Descubra que você possui poderes e se junte a uma rebelião contra uma rainha tirânica.
5. Cuidado para não perder a cabeça, ou o coração.

Quando caí no País das Maravilhas, só queria escapar da confusão monumental em que minha vida havia se transformado. Não tenho certeza se posso confiar em qualquer coisa neste lugar bizarro e inebriante. Mas os três homens incrivelmente atraentes que conheci aqui talvez precisem de mim ainda mais do que qualquer pessoa lá em casa jamais precisou.

Talvez um pouco de heroísmo seja tudo o que é preciso para curar o passado. Desde que a Rainha de Copas não corte nossas cabeças primeiro...

A Maldição do Tempo é o primeiro livro de uma série de harém reverso com romance de desenvolvimento gradual (medium-burn) que reimagina Alice no País das Maravilhas. Se você adora heroínas de personalidade forte, homens atraentes cheios de segredos e mundos repletos de prazeres e horrores inesperados, atravesse o espelho hoje mesmo!

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Capítulo 1 Lyssa Eu deveria ter percebido que algo estava errado no segundo em que tropecei na calça jeans do Brian ao entrar pela porta. Ele pode ser um pouco desleixado, claro, mas não costuma deixar suas calças… e camisa… jogados na entrada do apartamento. Recuperei o equilíbrio, o que foi um feito impressionante considerando que eu estava segurando uma sacola pesada em cada mão, e meu primeiro pensamento ingênuo foi que ele tinha tido algum tipo de problema, vomitado em si mesmo e resolveu se livrar da sujeira no momento em que passou pela porta… Então, meu olhar se fixou no vestido azul-escuro de seda que também estava amassado no chão, a alguns metros na nossa sala de estar. Aquilo definitivamente não era do Brian. Também não era meu. Minha mente ficou entorpecida, tomada por um formigamento incômodo que se espalhou pelo meu peito. Andei pelo apartamento no piloto automático, virando o corredor, para onde eu podia ver através da porta aberta do quarto, bem a tempo de ter uma visão deslumbrante da bunda nua do meu namorado enquanto ele estocava uma mulher igualmente nua em nossa cama. Ela arfou, ele gemeu e meus dedos afrouxaram nas alças das sacolas que eu estava segurando. Um pote de ovos em conserva e quatro garrafas de kombucha caíram no chão com um baque e o estalar de vidro quebrado. Brian se encolheu e se afastou – saiu – oh, Deus, acho que vou vomitar – da outra mulher. –– Merda. Merda –– xingou ele enquanto se arrastava para fora da cama. A mulher deu um gritinho quando me viu e tateou em busca de algo para cobrir a própria nudez. Naquele momento, eu me dividi em duas. Uma parte de mim manteve a boca fechada para que eu não vomitasse com o horror todo fervendo no meu estômago. A outra saiu voando para bem, bem longe, onde só observava tudo de uma distância entorpecida. Brian, obviamente, tinha procurado por alguém muito diferente de mim. O cabelo castanho-escuro da outra mulher era praticamente o oposto do meu loiro claro. Alta, curvilínea. Talvez esse fosse o problema? Ele queria peitos maiores? O embrulho do meu estômago piorou. A outra mulher passou correndo por mim em direção à porta. Brian ficou ali, passando a mão pelos cabelos, ainda xingando. –– Eu não sabia que chegaria mais cedo em casa –– disse ele finalmente. Uma risada escapou de mim. De qual lado meu aquilo estava vindo? Talvez dos dois. Porque meu namorado – correção: ex-namorado – era aparentemente tão babaca que achava que aquilo era algum tipo de desculpa. Aquele era o final perfeito para um dia já horrível. –– Tive uma reunião com meu supervisor logo antes do almoço –– expliquei. –– Fui demitida do call center. Será quantas vezes, em outros dias, que ele havia levado mulheres para lá enquanto eu estava sentada no meu cubículo apertado atendendo ligações repetitivas de atendimento ao cliente? Ele tinha se mudado para o apartamento três meses atrás. A traição tinha começado logo de cara? Ele já estava transando com outras pessoas antes mesmo de… Meu horror colidiu com a dormência, e meu cérebro descarrilou em uma explosão de faíscas. Apontei com força em direção à porta. –– Saia. Agora. –– Lyssa, vamos lá. A gente devia pelo menos conversar sobre… –– Agora! –– retruquei com uma voz que não parecia com a minha. Deve ter sido convincente, porque Brian se enfiou em sua cueca boxer e se embolou com uma camisa mais rápido do que eu imaginava ser humanamente possível. Então, ele se apressou pelo apartamento, desviando dos cacos de vidro quebrado, parando apenas por tempo suficiente para pegar seu PSP da mesa. Pelo amor de Deus. Ele quase caiu de cara no chão enquanto vestia a calça jeans, e eu teria rido, mas infelizmente ele conseguiu se equilibrar. Antes que eu tivesse que usar aquela voz áspera novamente, ele saiu. A porta bateu com um baque atrás dele. A amiguinha já havia fugido, levando o vestido com ela. Respirei fundo e meu peito se apertou. Um cheiro azedo de vinagre preencheu meu nariz. Olhei para as sacolas plásticas de compras vazando kombucha e o líquido do picles no chão de madeira. Eu nem gostava daquela porcaria. Era a bebida favorita do Brian, o lanchinho esquisito favorito dele. Depois de saber da demissão, eu só queria fazer algo para deixar outra pessoa feliz, porque isso faria eu me sentir melhor também. Por que eu tinha tanta má sorte com namorados? Talvez o Brian fosse meio bruto, mas eu tinha mostrado a ele que não ligava para isso. Achei que ele estava nessa para sempre. Será quantos sinais eu tinha deixado passar? Esfreguei a testa e deixei a bagunça lá, me jogando no sofá. Inspirei fundo; expirei. Repetidamente, até meus pés ficarem mais firmes onde estavam apoiados no chão. O apartamento estava em meu nome. Brian sempre se esquecia de marcar uma reunião com o proprietário para assinar o contrato. Ele teria que voltar e pegar as coisas que lhe pertenciam, mas eu podia colocá-las em caixas perto da porta para que eu quase não precisasse vê-lo. Ou combinar o dia e a hora que ele estaria aqui para eu estivesse do outro lado da cidade. Um ano e meio. Um ano e meio, e ele… na minha cama… Ele teria que deixar a chave. Aí eu terminaria com ele. Era estranho como seria relativamente fácil desvencilhá-lo da minha vida de todas as maneiras práticas. Nossas vidas não tinham se envolvido tanto assim, tinham? Pensei que levaria tempo. Pensei… Não importava agora. Eu nunca iria apagar aquela imagem da minha cabeça e não daria a ele a chance de repeti-la. A Melody podia me zoar por ser boazinha demais, mas eu não era tão trouxa assim, obrigada. Minha mão foi até a bolsa para pegar meu celular. Eu poderia ligar para minha melhor amiga agora mesmo, e ela colocaria todo aquele dia horrível em perspectiva. Melody era boa nisso. Embora, talvez, tivesse que expandir suas habilidades além dos limites habituais hoje, dada a catástrofe em que minha vida havia se transformado. Eu estava apenas esticando o polegar para digitar o nome dela quando meu celular tocou. Por um segundo, pensei que minha melhor amiga tivesse sentido meu sofrimento e decidido me ligar preventivamente. Mas não era o número dela na tela. Era o da minha mãe. Ah, não. Será que Cameron tinha se metido em outra encrenca? Não me espantaria se as surpresas desagradáveis ​​de hoje ainda não tivessem acabado. Atendi, agarrando a borda da almofada do sofá com a outra mão, me preparando para as últimas novidades do meu irmão mais velho. –– Oi, mãe. E aí? A voz hesitante da minha mãe cruzou a linha. –– Ah, bem, nada demais por aqui, mas… é um bom momento para conversar, querida? Sei que provavelmente está no trabalho. Mordi a língua para conter uma risada rouca. –– Isso não é um problema. O que foi? –– Ela não estava falando com a voz trêmula que eu associava aos problemas do Cameron. Talvez ele ainda estivesse se mantendo sóbrio, afinal. –– Foi tudo muito inesperado –– começou minha mãe. –– Você se lembra da sua tia-avó, tia Alicia? –– Claro. –– Tia Alicia tinha sido tia do meu pai. Quando ele adoeceu e por um tempo depois de sua morte, ela vinha à nossa casa para ver como eu, minha mãe e Cam estávamos. Ela sempre trazia os melhores livros ilustrados e me deixava sentar no seu colo enquanto dava vida às histórias com sua voz alegre. Minha lembrança mais nítida dela era de nós duas aconchegadas na velha poltrona do meu pai, o cabelo dela, sempre preso para trás, brilhando loiro e prateado à luz da janela da sala. Eu não a via desde os meus oito ou nove anos, uns quinze anos atrás. Ela e minha mãe brigaram por algum motivo, e ela parou de aparecer. –– Bem, parece que ela não está mais entre nós. E deixou um testamento… ela não teve filhos, sabe, e nunca se casou… ela deixou tudo para você. Meu aperto no telefone se afrouxou. Recuperei-me no último segundo antes de deixá-lo cair. –– Como é? –– Acho que você era a pessoa da família com quem ela se sentia mais próxima — disse minha mãe com uma de suas risadinhas. –– Não sei exatamente o que vai querer fazer com isso. Tem um pouco de dinheiro, não muito, e tem a propriedade Tenniel. É uma casa bem antiga… Seu pai cresceu lá, e os pais dele a herdaram do avô… Não sei em que estado está depois que sua tia-avó morou lá sozinha todo esse tempo. Tia Alicia estava morta. Senti um aperto no peito, mas que foi logo abafado, tanto pelos golpes mais diretos que eu havia levado naquele dia quanto pelos anos em que ela não havia demonstrado nenhum interesse por mim. Ela devia ter vivido uma vida terrivelmente solitária se sua melhor escolha para herdar era alguém que ela só conhecera quando ainda era criança. Uma onda de excitação surgiu sob a pontada de dor. Eu não queria mais ficar aqui, e agora não precisava mais. –– Vou ter que dar uma olhada, né? –– eu disse. –– Com quem preciso falar? *** –– Meu Deus, Lyss, este lugar é incrível! –– Melody se inclinou para frente para espiar pelo para-brisa enquanto eu estacionava em frente à casa da tia Alicia. Que agora era, de acordo com a escritura guardada na minha mala, minha. Minha melhor amiga havia feito uma avaliação precisa do lugar. Saí para dar uma olhada melhor na construção e levei um segundo para recuperar o fôlego. A velha casa vitoriana se erguia em meio a alguns hectares de jardins tomados pelo mato, entrelaçados de flores silvestres. Três andares de tábuas cor-de-rosa empoeiradas e vergas de madeira entalhada se impunham à nossa frente. Uma varanda coberta se estendia por toda a fachada, e uma torre despontava bem no centro da casa, com um telhado de duas águas apontando para o céu azul intenso. As janelas estreitas brilhavam, sem revelar nada além da escuridão do outro lado. Então, este era o lugar onde meu pai tinha crescido. Os pais dele morreram em um acidente de carro pouco antes de eu nascer, então imagino que a tia Alicia tivesse herdado a propriedade na época. Ficava a apenas algumas horas de carro da cidade. Por que ela nunca trouxera Cam e eu para cá? Por que tinha me dado a propriedade agora? Não havia nenhuma explicação no testamento, e o advogado dela não tinha sido capaz de me dizer nada de útil. Eu esperava que a resposta para aquele mistério estivesse em algum lugar lá dentro. Ela não me daria uma casa sem algum tipo de mensagem pessoal, certo? Subimos os degraus da frente até as portas duplas. A chave que o advogado da tia Alicia havia me dado parecia algo saído de um museu. Devia ter passado séculos desde que trocaram as fechaduras. Mas ela girou suavemente, a porta se abrindo com apenas um leve rangido. Entramos em um corredor coberto por um tapete macio. Uma mesa de mogno com pernas arqueadas estava encostada em uma das paredes; um relógio de pêndulo correspondente marcava o tempo na outra. À nossa frente, duas portas arqueadas davam para os cômodos do andar principal, e uma escada grandiosa subia para o segundo andar. Com o simples gesto de acionar o interruptor de luz ao lado das portas, um lustre de bronze se acendeu alto acima de nossas cabeças. Tia Alicia havia cuidado do lugar até o último dia. Apenas uma leve camada de poeira se acumulara sobre os móveis, dos vários dias que ela passara no hospital antes de falecer na semana anterior. A casa tinha um cheiro delicado, como se lilases secos perfumassem o ar. Alguns quadros com desenhos a carvão pendiam das paredes – paisagens do interior e cenas urbanas que reconheci como obras da própria tia Alicia. Eu ainda guardava um esboço que ela tinha feito de mim quando criança, enfiado em alguma caixa de lembranças por aí. Melody deslizava de porta em porta, com os olhos brilhando por trás dos óculos chiques. –– Cacete. Dá pra imaginar as sessões de fotos que você poderia fazer neste lugar? –– Ela bateu palmas com um sorriso largo. –– Você quer dizer, as sessões de fotos que você poderia fazer –– eu disse, provocando. Minha melhor amiga era uma aspirante a fotógrafa/designer de moda. Pela primeira vez, ela havia tido sua coleção mais recente aceita em uma das butiques independentes do centro. O vestido que ela estava usando agora, uma estampa ousada de roxos e dourados que realçava o corte preto curto de seu cabelo com um efeito incrível, era trabalho dela. –– Se você quiser organizar algo, sabe que eu topo. Ela balançou um dedo para mim. –– Primeiro, quero que você concorde em ser modelo de algumas das minhas peças. Você vai ficar ótima nelas, Lyssa. Eu prometo. –– Tenho certeza de que ficarão ainda melhores em uma modelo profissional –– eu disse. –– Pelo menos agora posso ajudar fornecendo o cenário. Já tínhamos conversado sobre isso um zilhão de vezes. Meu corpo de um metro e sessenta e poucos não era bem a altura de uma modelo, e embora eu fosse magra, era de um jeito desajeitado, em vez de graciosamente esbelta. Melody afirmava que ser desengonçada estava "totalmente na moda" no mundo da alta costura ultimamente. Eu não tinha nenhum complexo com meu corpo nem nada – estava bem feliz com ele, na maior parte do tempo –, mas não via necessidade de ele aparecer em catálogos para todo tipo de desconhecidos avaliarem. Como sempre, Melody bufou de brincadeira. –– Um dia desses, irei te convencer. Você precisa se soltar, garota! Principalmente agora que se livrou daquele trabalho chato. –– Acho que foi mais eles que se livraram de mim –– apontei. –– E não era tão chato assim. Não sei por que fui uma das demitidas. Todo mundo reclamava o tempo todo, mas eu meio que gostava de ajudar as pessoas a obterem as informações de que precisavam. Não havia muitos clientes idiotas. Eu também era muito boa nisso, sabe. –– Claro que era –– garantiu Melody. –– Você nunca encontrou um problema que não quisesse resolver. Não acha que precisa dar uma pausa em cuidar de todos ao seu redor? Torci o nariz para ela. Também já tínhamos tido essa conversa muitas vezes. –– Eu não preciso de cuidar de você. –– Não mais. Talvez houvesse um pouco desse elemento na nossa amizade quando nos demos bem no nono ano. Os pais de Melody tinham acabado de entrar no que ela agora chamava de "A Era dos Gritos", cinco anos antes do divórcio. Então, eu a incentivei a passar o tempo que quisesse na minha casa, o que acabou significando quase todas as noites. Vocês são sempre tão equilibrados, ela me disse uma vez. Sempre que estou por perto, sinto que qualquer coisa que esteja errada, tem conserto. Em troca, eu poderia agradecê-la por ter me apresentado à minha primeira bebida alcoólica (Ice saborizado, o qual eu ainda gostava), ao meu primeiro baseado (que também tinha sido o último) e à minha primeira sessão de amassos em uma festa (com Tommy Milton, que sumiu logo depois, mas beijava muito bem). Eu mantinha Melody com os pés no chão, e ela me incentivava a abrir as asas. O equilíbrio funcionava perfeitamente. –– De qualquer forma –– disse Melody, enquanto caminhávamos pela sala de jantar e entrávamos na cozinha equipada com eletrodomésticos que pareciam antiguidades ––, não precisamos nem falar do verdadeiro peso morto que acabou de tirar da sua vida. Adeus, Brianito! –– Eu sei que você não gostava tanto do Brian, mas podia, pelo menos, fingir estar triste por termos terminado. –– Pra quê? Ele mostrou quem realmente é, não foi? Já vai tarde. Fico feliz que saiba o babaca que ele é para poder seguir em frente. –– Acho que vou dar uma pausa nos relacionamentos por um tempo. Ela riu. –– Quem falou em relacionamentos? Viva uma aventura, tenha uma ou duas transas de uma noite. Já passou da hora de você aproveitar ao máximo. Tem um lugar para morar e dinheiro para durar um tempinho. Só desta vez, não precisa se preocupar com nada além do que você quer, portanto se joga. Arqueei as sobrancelhas para ela. –– E se o que eu quiser for me aconchegar naquele sofá de veludo ali com um suprimento gigante de sorvete e maratonar o catálogo inteiro da Netflix por um mês? –– Apontei para a sala de estar; ou talvez fosse a sala de TV, ou a de visitas. Era difícil saber qual era qual. Melody passou por mim e puxou uma mecha do meu cabelo. –– Eu sei que tem mais ousadia aí dentro de você, Lyss. É melhor extravasar isso de forma controlada, senão um dia vai explodir e aí já era. Vamos lá, vamos ver o que tem lá em cima. Enquanto subíamos a escada, um corpinho peludo caiu no patamar. Um gatinho preto que não devia ter mais do que alguns meses nos olhou e miou lamentosamente. Estalei a língua para ele e o peguei no colo. Melody me lançou um olhar curioso. –– A casa já vem com bichinhos de estimação incluídos no preço –– expliquei. — Deve haver uma gata chamada Dinah por aqui em algum lugar e alguns outros gatinhos. A tia Alicia ainda não tinha dado nomes. –– Vai ficar com eles? –– perguntou Melody. Acariciei a cabeça do gatinho entre suas orelhas atentas. Havia algo reconfortante no calor de seu corpinho macio. –– Não sei. Acho que depende do que vou fazer com este lugar. Meu apartamento tem um limite de dois bichinhos. Eu posso colocá-los para adoção se for preciso, só tive que concordar em ficar com a Dinah. O segundo e o terceiro andares tinham um total de quatro quartos, uma sala de música com um piano de cauda, ​​uma biblioteca e um banheiro onde os canos zumbiam de um jeito um tanto enervante quando eu abri a torneira da pia. Se eu decidisse ficar com a casa em vez de vendê-la, talvez fosse interessante investir em algumas reformas. Cada cômodo guardava novos mistérios – um guarda-roupa fechado, uma cômoda, uma escrivaninha. Meu coração batia um pouco mais rápido a cada um deles, mesmo que estivéssemos apenas dando uma rápida olhada no lugar. Eu iria explorar a casa com mais profundidade depois que me orientasse. Mesmo nunca tendo visto a tia Alicia ali, senti sua presença na elegância e na limpeza do lugar. Ela merecia que seus pertences fossem manuseados com o devido cuidado, e não vasculhados como se eu estivesse saqueando o lugar. Até então, eu não havia encontrado nenhum indício de que ela tinha antecipado minha chegada. No meio do terceiro andar, uma escada em espiral de ferro forjado levava à torre alta que eu vira de fora. Subimos aos trancos e barrancos e chegamos a um cômodo pequeno, muito mais bagunçado e decadente do que os de baixo. Algumas estantes encostadas nas paredes exibiam livros espalhados de forma desordenada entre pequenas estatuetas empoeiradas. Algumas peças de roupa haviam sido jogadas sobre a cadeira de balanço no canto. Ao lado dela, havia um espelho de corpo inteiro com uma moldura prateada em forma de cipó, como uma videira folhada que se enrolava ao redor do vidro. Melody soltou um assobio baixo. –– Acho que ela não subia aqui com muita frequência. Talvez aquelas escadas tenham sido um pouco demais para ela. –– É –– eu disse, não prestando atenção. Meu olhar estava grudado no espelho. Aproximei-me dele sem pensar, e uma sensação de tremor percorreu minha pele. Os pelos da minha nuca se arrepiaram. Eu congelei, me abraçando. –– Você sentiu isso? Melody inclinou a cabeça. –– Senti o quê? Ela não pareceu nem um pouco perturbada. Balancei a cabeça de um lado para o outro. Assimilar tudo o que aconteceu devia estar começando a me sobrecarregar. Meu coração batia mais rápido do que antes, mas quase… ansiosamente. Ao mesmo tempo, meu corpo se recusava a aceitar a ideia de ficar naquele quarto com Melody mais um instante. Virei-me para a escada. –– Isso é tudo. É melhor eu fazer compras antes que o mercado feche. Numa cidade tão pequena, eles podem não ficar abertos depois das cinco. –– Hmm –– disse Melody, me seguindo. –– Uma possível desvantagem de morar em uma casa antiga fantástica… será que dá para pedir pizza aqui? Nós duas rimos ao chegarmos ao pé da escada em espiral, e a tensão dentro de mim se dissipou. Quando olhei de volta para a torre, um leve formigamento, que eu não conseguia afastar, subiu pela minha nuca.

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