
a isca e outras histórias
Júlia Lopes de Almeida


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A Isca e outras histórias consiste em uma coletânea de quatro novelas pouco conhecidas escritas pela autora Julia Lopes de Almeida. As histórias são marcadas por uma crítica ácida à sociedade carioca decadente do começo do século XX, apresentando reflexões sobre amor, dinheiro e poder.
Nesse livro você vai encontrar os textos: A Isca, O homem que olhava para dentro, O laço azul e O dedo do velho – todos com o português atualizado para o acordo ortográfico vigente.
Julia Lopes de Almeida foi a única mulher entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras, ultrapassou os limites temáticos impostos às escritoras de sua época e abordou o cotidiano urbano do Rio de Janeiro, oferecendo uma visão sagaz da sociedade carioca do princípio do século XX.
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Dançava-se. Dionísio deu meia volta no salão e foi postar-se atrás de uma morena esguia de olhos verdes, que estava de pé e imóvel, toda dominada por um sentimento forte. — Por que insiste? — perguntou-lhe ele baixinho, rente à nuca. Ela não respondeu; seguia com um olhar fosforescente o langor de um par amoroso na moleza de um tango. O braço direito pendia-lhe ao longo do corpo; o outro apoiava-se pelo cotovelo a uma coluna deixando descair sobre o ombro a mão esguia de que pendia uma haste de angélicas que lhe roçavam pela espádua nua. Dionísio sorveu lentamente o aroma capitoso, olhando para o pescoço roliço da moça e para os seus cabelos pretos, ondulados e lindos. — Vera, a senhora tem febre. Não é preciso tocar-lhe na pele para a sentir. E eu bem sei por quê. Oh, eu bem sei por quê. Ela teve um estremecimento, mas não se voltou. Continuou calada, só com um fulgor doente nos olhos rasgados. — Eles já estão noivos… deixe eles se amarem em paz. Dionísio olhava intensamente para espáduas nuas de Vera, cuja pele se agitou em um arrepio. — Se a sua boca teima em não responder a uma só das minhas palavras, o seu corpo, mais sincero, manifesta o que está no seu coração. Bastou lhe dizer que o Antônio e a Isabel estão noivos para que a sua carne tremesse toda. A senhora é forte, não se esqueça, mesmo nas horas da mais tremenda conflagração sentimental, das suas atitudes. Há muito tempo que eu a observo, daqui e acolá. Rodeei-a para adverti-la que não deve abusar das suas forças. Só eu, Vera, no meio de toda esta gente, percebo e sinto a tempestade do seu espírito, porque a amo, a tal ponto que não penso em mais nada e nem em mais ninguém. E todo este clamor, todo o meu desespero nem sequer a faz voltar os olhos para mim? Há de chegar o dia em que compreenderá que o Antônio não a merece. É um banal, um ambicioso. A prova disso é que, tendo você prestes a cair em seus braços, ele preferiu a Isabel… a Isabel! Mesmo em surdina, a voz de Dionísio ao pronunciar o nome detestado tinha uma vibração metálica e de escarnio. — Deixe-os dançar e pensar que são felizes. Para eles a vida está toda dentro daquele ritmo vagaroso. Viverão sempre assim, para trás e para diante, para diante e para trás, sem voos de imaginação nem poesia. Até aqui o Antônio ainda tinha uma certa expressão interessante, porque era ambicioso. Casando rico tornar-se um apático. Nunca será um marido digno da agitação dos seus nervos nem do brilho do seu espírito, Vera. Deixe-os dançar sossegados; não procure magnetizá-los com os raios verdes dos seus olhos, e venha tomar uma taça de Champagne. Depois, vou levá-la ao terraço para ver o céu. Por que não me responde? Não quer? Ao menos finja que está alegre e me ama, nem que seja apenas para se vingar do Antônio. A música terminava. Vera voltou-se lentamente e contemplou o rosto longo e pálido de Dionísio. — Mas o senhor é casado! — E isso importa? Não deixo de ter coração. Você acredita que pelo simples motivo de um homem não ser livre, ele está impedido de toda a sorte de emoções e que não pode amar uma mulher diferente da sua? — Pode amar, mas não deve contar. — Há sentimentos mais fortes do que a Morte. Eu não podia ter adivinhado, mas agora que a encontrei, tenho de submeter-me ao destino e arrastá-la comigo. — Não. — Sim — Nunca. — Vera! — Olham para nós. Leve-me para tomar Champagne. — Enfim… — Eu não deveria ir. — Por que não? Contemplaremos depois as estrelas no terraço. — Não. — Sim. O seu braço treme, a sua mão está gelada, a senhora precisa fugir antes que o Antônio perceba quão agitada está. Veja-se naquele espelho; nunca a sua formosura teve uma expressão tão singular. A senhora me dá a impressão de uma ânfora de luar em que o engaste simétrico de duas esmeraldas criam a ilusão de pupilas humanas… não é um vulto de mulher que eu levo em meus braços, é uma escultura de luz, em que as labaredas se consomem sem expandir. Embora a causa da sua tristeza me regozije, acredite que eu tenho pena do seu sofrimento. — O senhor inventa motivos para fazer frases. — O seu orgulho não tem força capaz de me iludir. Eu vi o desespero mudo com que olhava ainda há pouco para o Antônio. — Dê-me Champagne. — O Antônio, que a cortejou, que se fez amado, que a amou mesmo, talvez, para de repente voltar-se para a outra, só porque a outra é… — O senhor é perverso, além de imprudente. Se o ouço é porque estou realmente com febre e sem forças. Dê-me Champagne e deixe-me voltar sozinha para o salão. — Perdoe-me. É o ciúme. Por ciúmes sou até capaz de um crime. Vera recuou, mal disfarçando um gesto de repulsa e estava prestes a fugir para livrar-se de Dionísio, quando Antônio e Isabel apareceram no salão irradiando felicidade e chispas de joias caras. Impensadamente, só pelo instinto do amor-próprio ofendido, ela voltou-se e, enfiando a mão no braço de Dionísio, deixou-se levar para o terraço. Como a noite estava áspera, não havia ninguém do lado de fora. No céu negro tremeluziam raras e pequeninas estrelas. O vento espalhava no ar o cheiro salgado das ondas e embaixo nas ruas os renques das luzes estendiam na treva fitas ponteadas de prata. Dionísio vacilou: Assim decotada não seria imprudência afrontar o ar frio da noite? Mas Vera caminhou para adiante até pousar as mãos no parapeito da balaustrada, e respirou com força, como se quisesse encher com a noite imensa o coração desiludido. — Se eles não tivessem aparecido no salão, a senhora teria fugido de mim. — Sim. — E não perdoará o meu desabafo? — Não. Calaram-se. Na doce penumbra do terraço os olhos de Vera tinham lampejos felinos e indecifráveis. Dionísio continha a força o desejo frenético de abraçá-la e esmagar a boca num beijo. — Escute, Vera. A senhora só encontrará repouso para a sua luta numa luta maior. Um coração como o seu não foi criado para as apatias mornas de sentimentos satisfeitos. O amor que lhe peço é um novo desafio ao seu destino de mulher. O primeiro passo está dado. Enganando-o a ele, acabará talvez por enganar-se a si própria, e estará nesse engano a sua salvação, e a minha felicidade, talvez… Vera começou lentamente a desfolhar as suas angélicas e a morder as brancas pétalas carnudas. O vento agitava-lhe os cabelos ondulados e finos, espalhando-os pela fronte e pelo rosto. — Eu não lhe peço o impossível, Vera! Ofereço-lhe apenas uma vingança aparente. O homem, como todo animal, ufana-se das vítimas que faz. Não consinta que esse se gabe de a ter sacrificado. É um fátuo. E os fátuos são os piores inimigos das mulheres. Para enaltecerem os seus merecimentos, exageram a quantidade das dádivas recebidas e não escolhem os ouvidos dispostos a escutar as confidencias das suas aventuras, mesmo as mais inocentes… engane-o agora, Vera, faça-o crer que nunca o amou, e para eterna sepultura do seu segredo ofereço-lhe o meu coração e o meu silêncio. Agitava-se na sombra a alma errante do vento. Toda a cúpula do céu parecia ainda mais alta e engrandecida. Silenciosa, Vera continuava mordendo as pétalas da flor. — Que faz? — perguntou Dionísio ansioso pela palavra que tardava. — Enveneno-me… — Mas e a vida que lhe ofereço? É uma ressurreição! E depois, sabe bem que há venenos que salvam. Deixe-se penetrar por este: e que ele lhe percorra todas as suas veias e bem diluído no seu sangue floresça na mentira que lhe peço. Vê com que esmola me contento? Com a de um engano! Resigno-me a ser um mero instrumento de vingança nas suas mãos caprichosas, nas suas mãos virginais… até que há de chegar o dia em que eu lhe possa dizer em palavras escaldantes todo o delírio da minha paixão. — Nunca. — Tem certeza? — É confiar muito no poder da mentira. — É. E Dionísio, transfigurado, agarrou sofregamente a mão de Vera. Ela retirou-a com rapidez: — Ainda não chegou a hora. Repare que estamos sós. E sós estaremos toda a vida um em face do outro. O senhor é casado. Eu sou honesta. A nossa comédia seria, além de um crime, uma vergonha. Procure amar a sua esposa. Eu procurarei resignar-me ao meu sofrimento. — Vera! — Até aqui falou o senhor; é justo que também eu tivesse alguma coisa para dizer. Tomei a minha deliberação. No dia do casamento do Antônio deixarei a companhia de minha madrasta e irei morar com meus avós, na fazenda do Cedro. O senhor já esteve lá, conhece o caminho. Um relâmpago de esperança alargou os olhos de Dionísio. — Mas não vá lá. — Poderei, ao menos, escrever-lhe? — Só se tiver alguma coisa a me dizer a respeito da Isabel, cuja família o senhor frequenta. Previno-o de que não lisonjeará o meu amor-próprio se me falar mal dela. Não lhe guardo rancor. Adeus! — Ainda a verei, antes do casamento do Antônio? — Talvez. Por acaso. II Isabel Maria de Mendonça, filha única do industrial Juvêncio Teies de Mendonça, foi internada aos dez anos num colégio religioso, onde deveria fazer a sua educação. Não era feia, e, como fosse acomodada de inteligência, agradou as mestras e as condiscípulas, tanto mais que nas suas travessuras não havia anormalidades. Nem como bondade, nem como maldade se destacou nunca de ninguém. Os defeitos que lhe notavam as diretoras eram o de ser preguiçosa e amiga do espelho. Com certeza teria tido em casa o exemplo vivo da mãe a incitar-lhe a todo o momento a vaidade de parecer bem. Isabel mal sabia ler e já citava, como conhecedora perfeita, os nomes dos melhores perfumistas e das costureiras mais elegantes. Mais de uma vez, mesmo, foi surpreendida aconselhando às colegas de classe, que não deveriam chorar nem rir, para não empanarem o brilho dos olhos nem criarem rugas. Que reparassem como ela sabia dominar as suas emoções de modo a não alterar as linhas do rosto! A menor provocação, porém, a sua sensibilidade de criança a fazia explodir em pranto ou gargalhadas, segundo as circunstâncias. Pouco a pouco as disciplinas colegiais foram modificando nela essas tendencias, mas, quando voltava do período das férias, eis que recomeçava a encher os ouvidos das outras com descrições de vestidos, joias e outros acessórios usados por ela e pela mãe no Rio. E, então, toda expressiva e amaneirada, empregava frases, como: “Era um amor de chapéu!” ou: “Uma verdadeira obra-prima, aqueles sapatinhos do Dorcet. Ah, eu não me calço em outro sapateiro!” As colegas olhavam para ela com admiração, imaginando através daquelas palavras destiladas de elegância e de luxo, maciezas de pelúcias confortáveis e pratas reluzentes em sua casa opulenta, de quem já sabiam que o cozinheiro era chinês, a criada de quarto francesa e o copeiro espanhol. Os anos corriam placidamente e com eles Isabel Maria se fez moça, sem que os pais parecessem ter pressa de a trazer para casa. Clara e alourada, ela tinha o corpo arredondado e as carnes rijas. Era o seu desgosto. Preferiria ser magra, ter as pernas muito finas, em que as meias fizessem rugas e as clavículas salientes, desenhando prateleiras grossas à flor da pele delicada. Chegava mesmo a pensar de si para si, com um suspiro bem do fundo da alma: “Melhor definhar…” e refreava apetites, deixando de comer as iguarias do seu agrado. Ao ouvi-la um dia lamentar-se de não ser tal qual um caniço, disse-lhe o pai: — Não sejas tola. O teu principal defeito não é o de seres gordinha, mas o de teres o queixo um tanto curto e o nariz arrebitado. Do contrário e ainda com mais alguns centímetros de altura, tu poderias servir de modelo para uma estátua. Habitue-se às tuas imperfeições e não lastimes as tuas qualidades. Aprende a ser justa e não tomes vinagre! Aos dezoito anos Isabel Maria saiu do colégio e teria sido então apresentada à sociedade se não tivesse de envergar o luto pela mãe, morta numa operação de apendicite. O pai a carregou então para a Europa, de onde voltou em princípios de 1914, com uma nova empresa industrial e o ânimo renovado. Isabel Maria trouxe lindas toilettes e a fama de ser muito rica. Tinha chegado a hora de entrar em cena. Com uma tia, a tia Milú, irmã da mãe e que vivia em sua companhia, começou a comparecer as festas de maior distinção. Como tinha os dentes bonitos, ria muito, já esquecida do preceito que apregoava em criança, de que o riso faz rugas. Ao redor da sua pessoa começaram logo a formigar adorações. Oh, todas muito desinteressadas! Entretanto o pai, homem sensato e precavido, advertiu-a de que tivesse cuidado: — Os pretendentes a dotes gordos surgem de todos os cantos, são os cogumelos da humanidade. Seja prudente e não te deixes cair no anzol sem mais nem menos… Tia Milú, solteirona, feia mas observadora, divertia-se analisando os apaixonados da sobrinha. Não há nada como ter fortuna. Se ela não fosse pobre, teria ficado para tia? Entretanto, Isabel Maria deliciava-se com o prazer dos seus sucessos. A guerra europeia não a preocupava de modo extraordinário, mas consentiu em ter um afilhado poilu , a quem a tia Milú escrevia longas cartas em seu nome e mandava tijolos de goiabada, maços de cigarros e bilhetes postais com vistas do Brasil. Foi em uma temporada de verão em Petrópolis que, em uma partida de tênis, Isabel conheceu Antônio Seixas, rapaz de uma elegância irrepreensível e de pele tão acetinada, que era um regalo olhar para ela, como dizia a tia Milú. Notou Isabel com certa estranheza que esse senhor parecia perfeitamente indiferente aos seus encantos, e, um tanto admirada, indagou alguma coisa a seu respeito. Soube então que ele era noivo de uma tal Vera, pianista, filha de um antigo ministro da República. A tia Milú, que conhecia toda a gente deste mundo e ainda metade da do outro, respondeu prontamente: — Sei. Ela é uma menina encantadora e toca Schumann como um anjo. Cultiva também as ciências naturais e dizem que os melhores trabalhos de botânica firmados pelo pai são feitos por ela; verdade seja que se fosse o nome dela que firmasse esses mesmos trabalhos, diriam todos que eram obra do pai… — Ela usa óculos? — Não. — Que idade terá? — Uns vinte e quatro anos… — É rica? — Naturalmente. O Landim já foi duas vezes ministro e dizem por aí que se aproveitou dos ensejos para bons negócios. É para o que serve a política. Nessa mesma noite Isabel encontrou-se com o Antônio num sarau musical na casa da Silveirinha e percebeu que ele a contemplava com certa intenção, muito expressiva. Ao voltar para o seu palacete, a tia Milú disse-lhe, ainda no automóvel, ter feito a mesma observação, e acrescentou: — Talvez você não tivesse reparado que ele pinta os olhos. Pinta, e não é o único. O Torres e o Pedrinho Chaves carregam ainda mais do que ele no traço das pestanas e no aveludado das faces. A maquiagem não é só atributo das mulheres e dos atores. Desde que começou no Rio a moda americana dos homens rasparem a cara, eles afeminaram-se. Podem não ter dinheiro na algibeira, mas têm perfume no lenço, calçam meias de seda e até comem bombons. No meu tempo estes meninos seriam corridos à vaia… não por mim que, se os não vi chegarem-se à minha pessoa, não foi porque os rechacei… — A senhora iria querê-los com carmim e tudo? — Depois dos meus trinta. Antes não. Isabel sorriu; e depois: — O Antônio é pouco mais alto do que eu — É. — Faríamos um bonito par, mas eu prefiro o André Sales. — E ele prefere a Vera Landim… III Aproximava-se o Carnaval e já toda a sociedade trepidava no gozo antecipado desses três dias de fascinação. O calor de um verão abafado e lento, excitava a explosão da grande loucura coletiva, fermentada de sensualidade e mantida como o rito de uma religião sem perdões. Tinha começado o maior movimento do ano. As casas de penhores escancaravam as portas para a passagem de muitos loucos que só nelas encontram o recurso indispensável para o aluguel dos carros, aos banquetes em companhia e as lantejoulas dos vestuários. Os negócios, mesmo os mais urgentes, adiavam as suas conclusões para depois desses três dias de delírio: os ladrões exerciam com redobrada ferocidade as suas artes de escamoteação para, abastecidos de boladas gordas, poderem gozar de todas as regalias dos festejos sem nenhuma espécie de preocupação; as modistas enchiam-se de trabalho e nas prateleiras dos restaurantes fazia-se todo o lugar possível para as bebidas e os petiscos da ocasião. Em todas as palestras, com ou sem propósito, para o louvar ou maldizer, ou mesmo sem ser para uma nem outra coisa, mas acidentalmente, saltava a palavra Carnaval como um ponto de interrupção na vida da cidade, ou talvez como um ponto terminal. Dizia-se que depois dele se começaria uma existência nova… Acariciado pela frescura de um pijama de seda, Antônio lustrava as unhas, recostado junto a janela do seu quarto, aberta para as doçuras da Serra. Pelas escarpas encrespadas de vegetação, uma luz de ouro filtrada em violetas se esparramava toda luxuriosamente fazendo ressaltar no verde-negro da mata e as manchas amarelas dos ipês recentemente florescidos. Mas, ou o Antônio não tinha a alma contemplativa, ou uma preocupação qualquer, mais forte do que todos os deleites espirituais, lhe distraia o pensamento. A sua fisionomia, apesar da ocupação fútil com que ele se entretinha, deixava perceber que um conflito de ideias lhe agitava o cérebro. Realmente, Antônio pensava em duas coisas terrivelmente absorventes: o amor e o dinheiro. Criara hábitos de rico. As pessoas da sua roda tinham os mesmos gostos dispersivos. Ele não compreendia a necessidade de um trabalho assíduo, que só julgava digno dos homens de poucos recursos intelectuais. Esperava fazer uma grande fortuna repentinamente, como intermediário de algum negócio fabuloso de origem americana. Sentia um verdadeiro fanatismo pelos Estados Unidos, que considerava a parte do mundo de onde se ergue o sol. Apesar disso, os dias voavam sem que essa sonhada comissão aparecesse. Pois ele já falava regularmente o inglês! A sua fé, porém, não diminuía, vincada na alma a certeza instintiva de vir a ser um dia um dos milionários mais renomados do país. Toda a sua vaidade estava revestida de um físico que, com um pouquinho mais de harmonia, evocaria a lembrança de um mármore clássico. O transporte náutico tinha-o aprimorado. Uma estadia cara em Petrópolis, onde jogava e perdia com pessoas de posição, convencia-o agora de que ele precisaria casar-se com uma mulher muito mais rica do que a Vera Landim. O Rio de Janeiro de 1915 impunha-lhe essas deliberações práticas. O tempo era de exigências e ele não tinha nascido com envergadura de Hércules para poder lutar com o Tempo. Teria de submeter-se as leis que as circunstâncias impunham e desposar uma mulher rica. Uma pena não poder se casar também com a Vera… Mas os seus minguados recursos extinguiam-se. Supunha mesmo que já devia mais do que tinha, e agora, chegado o Carnaval, precisava descer ao Rio e encher a carteira de notas grandes, para não fazer figura triste diante dos amigos. Um deles, o Gusmão, entrou pelo quarto como um vendaval: — Venho combinar coisas. — Diga. — As Pimentas querem organizar um grupo chique para uma passeata de automóvel na segunda-feira, na Avenida, e lembraram-se de ti. A combinação é irmos todos de branco com chapéus vermelhos; coisa chique, graciosa, artística; o que acha? — Digo que não. — Oh, bruto! — Já tenho par. — Ah, é verdade; eu tinha me esquecido, filho! Perdoa. A Vera… — Não. Vera está na fazenda do avô, convalescendo de uma gripe e ainda não tem licença do médico para descer ao Rio. — Nesse caso… Passou pela cabeça do Antônio a ideia de que Isabel Mendonça, que diziam milionária, era íntima das Pimentas. Exatamente nessa noite ele deveria encontrá-la no sarau da Silveirinha, onde, com a maior facilidade, poderia cortejá-la um bocado disfarçado em pouco caso, o que Ihe instigaria o amor-próprio. O amigo, respeitando-lhe o minuto de meditação, agitou-se calado pelo quarto e pôs-se depois a remexer nas perfumarias do toucador. — Tudo Coty , hein? — Tudo. Olha cá, já estou um pouco arrependido; quero dizer: já estou um pouco tentado. Quem vai, além das Pimentas? — Ora quem vai! Vão as duas Nunes, as minhas primas Borges, a Isabel Mendonça e as irmãs do André. Um grupo superfino; o suco dos melhores bagos conhecidos. É uma pena que não vás, porque és decorativo, muito decorativo. Quem se lembrou de ti foi a Cotinha Pimenta. Aquela justifica o nome; é mais ardente que rum. E que bonita se está fazendo, reparaste? Está na idade terrível. Tem quatorze anos e já despede olhares e ditos de uma mulher das mais cultas nas ciências naturais da tentação e do namoro. Sabe aproveitar excelentemente a ocasião; porque hoje são as meninas, a bem dizer adolescentes, as que mais atraem os homens. Uns cabelos que esvoaçam em penteados de meninice, umas pernas que ainda mostram sem recato a nodosidade dos joelhos, uns braços que se desarticulam em gestos irrefletidos têm um poder de atração mais irresistível do que todas as tentações das mulheres feitas. Acabou-se a ingenuidade, amigo. Já se não desfolham calêndulas como oráculos de amor. A época é positiva, é decisiva. Pois agora vou dar a nossa Pimentinha a triste notícia da tua recusa. Vai chorar. — Não dê. — Então? — Está resolvido; vou. — Ora graças! — Diga-me o que terei de pagar e pronto. — Em todo caso, vê lá. Se tens receio que a tua noiva se aborreça, já não está aqui quem falou. — Que noiva? — Ora essa! Pois então não és noivo da Vera Landim? — Não. Não cheguei a pedi-la em casamento. Foi um simples flerte. — Pensei que a coisa tivesse sido mais séria. Tu mesmo davas a entender isso. — Bem. Chegamos a ser namorados, mas… O Antônio interrompeu a frase, muito concentrado nas cutículas. — Já a esqueceste. — E é bem provável que ela já se não lembre de mim. — Com os diabos! Tu parecias muito caído. Eras a sua sombra e eu te compreendia, porque a Vera é muito interessante e original. Talvez um pouco desdenhosa; Pois tanto melhor. Se não há compromissos, toca a aproveitar! O Gusmão tirou do bolso uma fita métrica e enlaçou com ela a cabeça do Antônio. — Deixa-me ver a medida para o teu chapéu. A encomenda deve seguir hoje. Prepara a tua elegância e aparece por lá esta tarde, para a combinação. Esteja disposto a se divertir e… — A gastar dinheiro. — É a contingência infalível. Mas é semeando dinheiro que se colhem simpatias e admirações! Teremos de pagar por nós e por elas: autos, confete, bombons, serpentinas e uma ceia já apalavrada no Assírio. Tudo do melhor, tudo chique, tudo arrebatador. E adeus, meu anjo, que ainda vou ao calista. — Escuta ainda: qual é a figura principal? — Queres dizer a representativa de chefe da família? É o irmão das Pimentas, o Lózinho, menino muito esperto. Os pais não consentiriam que as filhas fossem sozinhas conosco. E quanto às outras, vão com as Pimentas! IV A noite estava ardente. No céu aveludado ziguezagueavam de vez em quando claridades elétricas; mas o povo que enchia as ruas, comprimindo-se numa massa ondulante de tapete vivo, não levantava os olhos para as nuvens, e se o fizesse não veria mais do que um dossel multicor de serpentinas cruzadas em todas as direções, ora suspensas das janelas, ora dos combustores elétricos, das arvores dos passeios ou dos carros que passavam lentamente entre o falatório e a agitação da multidão que empunhava lança-perfumes e delirava de gozo. Num desses carros, no meio de um grupo superior à sua lotação, Isabel e Antônio deixavam-se esmagar um de encontro ao outro. Para rende-la à sua fascinação, ele não necessitava expender o esforço de uma única palavra suplicante ou convincente. Sentado a seu lado, nas mesmas almofadas, sentindo todo o calor do corpo e transmitindo o do seu, dizendo as coisas mais simples e banais, no tom mais envolvente e cálido, bem percebia que nenhuma eloquência poderia ser em tais casos mais decisiva. Carnaval! Carnaval! A atmosfera, carregada do cheiro exacerbador do éter, dilatava as narinas e fazia palpitar com força o seio das mulheres; os olhos fulguravam no prazer estonteante daquele movimento sem interrupção e daquele ambiente agulhado de gritos e de exclamações. De vez em quando, Isabel levantava-se para lançar uma serpentina até um outro carro. Para ampará-la, Antônio levantava-se também, e passava, às vezes, a mão pela cintura; outras vezes deixava-se ficar sentado muito cingido a ela, olhando-a de perto para o perfil do seio, quando no gesto elegante de arremessar as fitas, ela volteava no ar a mão, resolutamente. Baixando os olhos, Isabel notava a intensidade dos do Antônio e então mais se lhe aqueciam as faces já abrasadas. Carnaval! Carnaval! A onda humana movia-se compacta e ululando num ofego rítmico quase doloroso. De vez em quando, ladeando o carro, eles viam passar os cordões das associações populares, empoeirados, amarrotados, luzidios de suor, aos trancos e barrancos, empestando o ar abafado com a morrinha da came excitada de pele escura. Na melodia das suas vozes sentia-se, menos do que a vibração da alegria, a sombra de um sentimento disciplinado e soturno e nos seus olhos esbugalhados ardia mais fé do que júbilo. Dizia-se que eles cumpriam antes uma cerimônia de preceito religioso, do que faziam uma passeata de mera galhofa. Quem os visse sem a despreocupação da hora alucinante, suporia que toda aquela gente ia assim cabriolando de estandarte em punho, gestos estudados, ensaiados e impostos por uma ideia preconcebida, cumprir um ato de reverencia a algum Deus ou ídolo africano. Ao bum bum burum bum da marcha tragicômica, para disfarçar o odor almiscarado, Antônio bisnagava o pescoço de Isabel, gostando de a ver se encolher toda pela sensação fria do éter. Às onze horas, para desentorpecerem as pernas contrafeitas nos apertos do auto, lembraram-se todos de organizar uma bicha rabeadora e desataram a correr pela Avenida, uns com as mãos nos ombros dos outros, a cantar: “Mariquinha sai da chuva”, e a furar alegremente por entre a turba densa. Uma das Pimentas, aquela dos olhos languidos, queixou-se de que lhe davam beliscões nas coxas; a outra, que alguém a beijara na orelha. — É preciso não fazer caso e ir andando — aconselhou um dos do grupo; e a bicha seguiu zunindo. Nunca houve no Rio Carnaval tão buliçoso. À meia noite entraram no Assírio para a ceia. Dançava-se. Dois pares do grupo sumiram-se na vertigem dos tangos. A atmosfera estava enevoada de fumo. Antônio sentou-se ao lado de Isabel e tocava de vez em quando com a dela a sua taça de Champagne. Depois ofereceu um cigarrinho. Ela fez uma careta, mas aceitou. Ele ria e ela já o tratava, embaralhadamente, por tu e por você… Dias depois estavam noivos. V Teles de Mendonça, que fora sempre um homem delicado e circunspecto, começava a parecer suspeito à tia Milú. Uma vez, encontrando-a no corredor, deu-lhe um puxão tão violento que a fez entornar sobre si um copo de leite que levava para a sobrinha. Ela não pôde compreender aquele gesto; o próprio cunhado mal o executou e mostrou-se logo confuso metendo-se pela porta do seu quarto adentro, mais vermelho do que o sol num ocaso de verão. Outra vez, na hora do almoço, ao espetar uma batata frita que lhe fugia do prato, o grande industrial disse uma tal obscenidade que a filha, que não compreendeu, arregalou os olhos e a tia Milú saltou na cadeira murmurando, apesar da sua subalternidade de parenta pobre e dependente: — Oh, Mendonça, também você! Ele disfarçou, engolindo de um trago o seu copo de vinho. Ao Antônio, quando ele Ihe pediu a mão de Isabel, afirmou que não era assim tão rico como se propagava, mas que daria à filha um dote de duzentos contos e uma casa. Antônio esperava mais, mas sorriu. Para consolar-se, lembrou-se de que a Vera não teria nenhum. E isso é que seria realmente muito pouco! Percebendo talvez uma névoa de decepção nos olhos do futuro genro, Mendonça prometeu que o faria sócio da sua fábrica, pois ele andava exatamente pensando em reformar a sua firma comercial. Como compensação não podia haver nada melhor: além da fortuna, a importância! Antônio julgou-se um príncipe e atirou-se para uma ourivesaria a comprar a crédito diamantes e perolas para a noiva. Pagaria depois, com o dinheiro que ela trouxesse, mas teria desde logo o prazer de se mostrar generoso e de a ver lisonjeada… Nas vésperas do casamento, Isabel e tia Milú bordavam na saleta os últimos preparos do enxoval, quando Mendonça entrou da rua com ar de novidade. Tudo nele resplandecia: os olhos, a pele, o peito da camisa, a calva, o anel, os dentes, que os tinha brancos e rijos, e até o castão de ouro da bengala, que ele conservava entre as mãos irrequietas. A tia Milú já tinha notado em silencio que as mãos do cunhado pareciam cada vez mais agitadas! — Oh, Milú, manda hoje abrir Champagne. Estou muito contente. Removi uma grande responsabilidade de cima dos ombros. Chegou a minha hora de liberdade! — Que houve? — Houve que dei sociedade na minha fábrica ao cavalheiro Benetti, que assume desde já a direção do estabelecimento, com plenos poderes para pôr e dispor de tudo como melhor lhe parecer. Eu estava farto, positivamente farto. Já não podia aturar operários, que julgam ter o rei na barriga, falam grosso e ameaçam os patrões a todo o instante de paredes, de mortes, do diabo! É justo que eu agora descanse. Já trabalhei demais. O Benetti é homem de pulso, veio-me recomendado de S. Paulo. O Dionísio conhece-o de perto e elogiou-o. Na verdade ele é um homem agradável, até fidalgo. Dava-se com o rei. Hei de trazê-lo, mais a senhora, a jantar conosco. Vocês verão… Isabel levantou-se, pálida como a morte. Desde as primeiras palavras do pai que ela escutava com os lábios tremendo de raiva e os olhos cheios de espanto. Tia Milú tinha deixado rolar das mãos frouxas a costura para o chão. — Mas, meu pai, o senhor prometeu esse lugar de sócio ao Antônio! Mendonça rebentou numa gargalhada ruidosa. — Ora, o Antônio! Só se quisesse ver a fábrica ir por água abaixo. — Não quero saber. O senhor prometeu, há de cumprir a promessa. Mendonça media a filha de alto a baixo com um olhar de ironia perversa e depois, levantando os ombros e com um sorrisinho fino e muito especial, respondeu: — Ao Antônio bastarão por enquanto os duzentos contos do dote e a casa da rua Marquês de Abrantes, onde vocês vão morar. Olha, ainda lhes dou o piano. Já não é mau. As insaciedades dão sempre mau resultado. E é ficar muito contente e calar o bico, tanto mais que o negócio agora está feito e é irremediável. As escrituras estão lavradas e o meu sócio é já tão dono daquilo quanto eu. A senhora há de te dar um bonito presente de núpcias, que ela é a distinção em pessoa. Na Itália só frequentava a alta sociedade. — É inacreditável! O que dirá ao Antônio? — Veja se eu vou me incomodar muito com isso! — Pois deveria se incomodar, não quer passar por um homem sem palavra. — Deixe disso, amorzinho. Olha que se grimpas muito nem os duzentos contos eu dou, ouviste? Nem cem! O dinheiro é meu. Fui eu quem o ganhou, posso dispor dele como entender. Diante destes argumentos, Isabel calou-se, vacilou ainda, depois saiu batendo a porta. — Está bonita. Ora já viu você, Milú, como a sua sobrinha gosta de dinheiro? Como se fosse ela que o tivesse juntado. Tem graça? Milú sentia tremores de frio na alma. O cunhado continuou, mudando de tom: — Pois está dito; manda fazer hoje mais um doce, e Champagne. O de ontem era falsificado. — O de ontem? Mas nós ontem não tomamos Champagne. — Como não? Querem ver que foi em casa da Benetti? — Deveria ter sido… — Que mulher, Milú, que mulher! É linda como um anjo, canta como um canário e tem uns braços tão brancos, tão torneados, que eu não resisti e ferrei-lhe uma dentada. — Oh! Mendonça! — Uma dentadinha amorosa, suave, que não deixou marca… — Virgem Maria! Realmente, você não parece o mesmo homem. Tenha ao menos respeito pela gente… — Ora, ora, queria você que eu lhe fizesse o mesmo… — Mendonça! Ele riu-se e saiu da sala cantarolando. Tia Milú ficou pensativa. Havia muito que ela andava cismada com os modos do cunhado, que, ora a tratava com delicadeza, ora com modo desagradável ou licencioso. Que quereria dizer tudo aquilo? Ele deixará de ser o homem correto e bem-comportado que fora sempre para passar os dias e as noites fora de casa. Ela disfarçava aquelas ausências explicando à Isabel que elas eram impostas pela necessidade dos negócios; mas no íntimo pensava que o Mendonça, depois de velho, começava a espirrar as asneiras que em moço não praticara. VI[CD1.1] A Vera Landim Julho, 1916 É a primeira carta que lhe escrevo e será curta. Ela representa mais a execução de uma ordem sua do que mesmo o desejo de expansão da minha saudade. Esta é tão grande que não caberia numa palavra escrita. Para a expressão do meu amor, só o beijo! Agora o resto: Antônio e Isabel, voltando da sua viagem de núpcias à Argentina, onde estiveram três meses, passaram pelo dissabor de conduzir o pai Mendonça ao Hospício dos Loucos, onde ele ficou em tratamento. E ainda o pior não é isso. O pior é que o velho esbanjou a fortuna e está completamente arruinado. O que lhe vale é que a sua loucura é alegre. Vive na ilusão de que é milionário, formoso e que as mulheres o adoram. Se a mim tal infortúnio originasse a ventura de me supor amado, não por todas as mulheres, mas só por uma e única mulher, acredite, Vera, que eu desejaria ficar doido também. Seu escravo, Dionísio. A Vera Landim, Fazenda do Cedro. Julho, 1916 Foi mal escrever-lhe a primeira carta, que fiquei logo ansioso para escrever a segunda. Terei resposta? Não terei resposta? Seja como for, ao menos enquanto estiver lendo o que lhe escrevo, pensará em mim. Oh, se por inspiração da Serra clemente me permitisse uma curta visita ao Cedro, que esmola faria a minha alma! Dionísio. A Vera Landim Agosto, 1916. Os dias sucedem-se aos dias sem que eu receba ao menos uma palavra sua. Compreendo. Não quer que lhe fale do meu amor. Mas, se só ele existe no mundo, do que hei de falar então? Dionísio. A Dionísio. Fazenda do Cedro, Agosto, 1916 Fale-me de sua mulher. Vera. A Vera Landim. Agosto, 1916. Nunca supus que a sua crueldade chegasse a um tal requinte. Manda-me que eu fale de minha mulher para obrigar-me a pensar nela ou para repetir-lhe muitas vezes que sou casado? Seja pelo que for, irei obedecê-la, visto que o seu leitmotif nesta sinfonia em que há dez meses me embala, é sempre ela. Não exija que lhe relate o prólogo do nosso romance. Fomos noivos como os outros e depois de vários capítulos de banalidade conjugal, descobri que minha mulher se dava ao vício da morfina, que a está matando. O segredo é bárbaro; aqui o deposito nas suas lindas mãos. Ela agora começa a odiar-me. Tenho surpreendido ela em momentos terríveis. Ninguém suspeita lá fora do que se passa embaixo das nossas telhas, a não ser o médico, e a esse impus absoluto silêncio. De ti nada quero exigir, Vera, e lamento enviar-lhe em vez de uma braçada de rosas este punhado de urtigas. Dionísio. VII Tia Milú descia a pé a praia de Botafogo, quando um parente, o Coronel Abrunhedo, a fez parar. — Cheguei ontem do Sul e fiquei pasmo quando me disseram em casa que o Mendonça… — Morreu há um mês. Faz hoje exatamente um mês. Coitado. Ainda me parece mentira. — No hospício? — Sim, de repente. Estava a tomar leite quando caiu para o lado, sem um ai. — Deixou testamento? — Nada. Não deixou nada. O tal Benetti teve a habilidade de fazer passar tudo para o seu bolso. Um grande escamoteador, o tal Cavaliére! — Nesse caso, você… — Estou viva. Já não é pouco. — Mora com eles? — Não. E até, a propósito, se você souber alguém que precise de uma governanta… — Que?! — Sempre tive mais jeito para governar do que para ser governada. Entretenho-me também nas horas vagas, que são todas, a fabricar sapatinhos de lã para recém-nascidos. Nunca me interessei tão vivamente como agora pelo aumento da população do Brasil. O tricô é uma especialidade muito adequada aos ardores da nossa terra, e agora está na moda para as pessoas da minha idade e condição. E adeusinho, que vou consolar a pobre Isabel. Ela está sentida. Afinal ele era seu Pai… — Era. Era, sem dúvida nenhuma. A mãe foi séria. Nem naquele tempo havia nesse sentido as perplexidades de hoje. — Ora, deixe-se de histórias, a carne foi sempre fraca. — Mas o espírito era mais forte, sabia resistir e não tinha medo da pobreza. Ora, quer você saber? Ainda ontem se deu um caso curioso com meu filho. Ele estava na porta do salão de um baile, quando viu um rapaz abrir uma carteirinha e começar a consultar uma lista de nomes de moças, seguidas dos respectivos dotes. Como visse que uma das cifras estava errada, meu filho explicou, muito prestativo: — olhe que o dote desta menina é maior do que o senhor pensa… — Como sabe? — perguntou-lhe o outro. — Porque ela é minha irmã! — Que horror! — Pois é assim. E agora, até quando quiser. Separaram-se. Milú sentia-se desconsiderada e arrependida. O seu luto, feito com tecidos baratos e cosido pelas suas próprias mãos, dava-lhe a impressão de atestar aos olhos de todo o mundo a sua decadência. Do que se arrependia era de ter passado a maior parte da sua vida no período da grande energia como parasita de uma casa rica, a gastar a sua atividade em vigilâncias que não lhe tinham deixado nenhuma compensação pessoal. Quando entrou no jardim dos sobrinhos, saia Antônio com ar agastado. Ela ainda lhe estendeu a mão, esboçando um sorriso; ele mal lhe retribuiu o cumprimento. Está regulando, pensou tia Milú, que embarafustou pelo vestíbulo adentro, morta por um pouco de refrigério e consolação. Mas Isabel, Isa, como o marido a chamava, também não estava de bom humor. Pálida, com os olhos úmidos, ela agitava-se numa sala do interior, onde o Antônio, que não lia, não escrevia, nem tinha negócios, instalara uma escrivaninha de luxo, confortável e grande. De uma das gavetas abertas desse móvel transbordavam papéis. Eram contas. Os olhinhos perspicazes da tia Milú perceberam a coisa à distância, mas a sua boca prudente não disse uma só palavra. Foi Isa quem rompeu: — Que manhã, que manhã infernal! Também a senhora poderia ter aconselhado meu pai a fazer um seguro de vida em meu favor. Esse dinheiro, ao menos, não poderia ter sido devorado pela peste do italiano e da mulher. — Eu?! — Pois então? Não vivia a seu lado, como irmã, não tinha influência sobre o seu espírito?! Não tinha prática da vida, idade para meditar sobre esses assuntos? — Oh, filha, pois eu lá podia imaginar. — Pois devia, devia e devia! Afinal, o seu papel era o de zelar por mim, como se fosse minha mãe. Para isso morava conosco. — Do que bem me arrependo. — Parece-me que não lhe faltou nada. — Mas falta agora. — Damos o que podemos. Se não mora cá em casa é porque não temos quarto disponível. Quartos não faltavam, mas a tia Milú respondeu sem amargura: — Bem sei, filha, bem sei. Isabel sentiu-se arrependida e calou-se por momentos, remexendo com os dedos, nervosamente, as contas do marido. — Podem pensar de mim o que quiserem, mas não é justo que se queixem de seu pai. Afinal, vocês não ficaram pobres. Duzentos contos e um palacete que vale quase o dobro, já não é mau de todo! Eu sempre tive veneração pela memória de meus pais, que não me deixaram nem um vintém. — Mas seus pais não eram milionários, como o meu! — O seu coração mudou com o casamento, Isabel. Você antes nunca pensou em dinheiro nem pareceu injusta. Com a fortuna que têm nem o Antônio precisará trabalhar para se manterem. Ainda assim é provável que ele o faça, porque é moço, tem saúde, boas relações, e não será difícil conseguir um bom lugar em qualquer companhia ou ministério. — A nossa fortuna! Como a senhora enche a boca com a nossa fortuna! Julgará a tia Milú que os duzentos contos possam permanecer intactos toda a vida dentro de um cofre, como um Santo Antoninho num oratório, e só pelo seu prestígio nós possamos gozar cá fora dos benefícios? Mas que ideia faz a senhora então do dinheiro? Só em Buenos Aires, quanto se gastou? Meu pai tinha-nos dado a entender que correriam por sua conta todas as nossas despesas de viagem, e o Antônio, fiado nessa promessa, não olhou a economias, está claro, nem isso ficaria bem. Na Argentina há muito luxo e nós como brasileiros não poderíamos fazer figura triste. Além disso, tivemos de passar uma semana numa estação balneária, onde se jogava… Convidado para o Cassino, o Antônio não podia se recusar a jogar. Diriam logo que el macaquito tinha medo de perder… como afinal perdeu. Mas perdeu como poderia ter ganho: com a cara alegre. — Sim, ainda pensava correr tudo por conta do sogro… — Depois, as contas. Veja. Só o meu colar de Pérolas custou dez contos; os brincos, quatro; as pulseiras, três; os anéis, cinco… — Mas tudo isso ele te deu em solteiro, e supusemos que fossem prendas compradas com o próprio dinheiro. Isa não comentou a provocação e continuou mencionando as despesas de forma aflita: — Antônio tinha algumas dívidas de rapaz. Todo o rapaz tem dívidas; além disso fez um enxoval digno de quem ia ser genro e sócio do grande industrial Teles de Mendonça, a maior piada da sua vida, como ele diz, e com razão. O nosso automóvel, só o nosso automóvel, sabe quanto nos custou? Vinte contos. E agora o resto, não se conta? Criadagem, alimentação, divertimentos, tudo, tudo?! Ah, o senhor meu pai foi bem culpado. Pobre do Antônio… — Ainda você o lamenta. — Não há talvez razão para isso?! — Pois ele não trouxe outra coisa senão dívidas! Isa caiu em si e explicou: — Ele tinha um grande negócio em vista, aí com uns americanos que ficaram de lhe entregar uma gorda bolada na véspera do nosso casamento… — E não entregaram. Os americanos são terríveis, menina; eles recebem, não dão. Cuidado com eles… — A senhora está com ares de quem não acredita. — Eu?! Realmente, a tia Milú não acreditava na história dos americanos e percebia que a sobrinha estava apenas repetindo o que ouvira do marido poucos minutos antes. Era evidente que ela tinha chorado, talvez na defesa do próprio pai, a quem agora acusava, para atenuar ao olhar alheio qualquer provável censura ao seu querido Antônio. Isa tinha agora os olhos secos, as narinas dilatadas e andava pela sala como a procura de qualquer coisa; depois amarfanhou os papéis que estavam em cima da secretária e atirou-os para dentro da gaveta, que fechou com ímpeto. No arremesso, uma das contas voou até os pés da tia Milú, que a ergueu do chão e entregou a sobrinha, mas não tão depressa que não tivesse lido: Uma perola para gravata, Rs. 4:000$000. Isa é que não leu, tornou a abrir a gaveta, tornou a fechá-la, e sentou-se em frente da tia, olhando-lhe fixamente para o rosto. — E o amor? — perguntou então Milú, com tão encoberta ironia que a outra não compreendeu. — Ele ama-me muito. — Pois isso é tudo. Quando há amor, que importa o resto? — Quem ama não come? — Apenas para sustentar-se, se não tem para mais e com isso se deve sentir satisfeito. Que melhor dote para um homem que ama, que possuir a escolhida do seu coração e vê-la assim tão perfeita, tão boazinha como tu és? O Antônio não se casou com o teu dinheiro; casou-se contigo, e deve considerar-se o homem mais feliz do mundo, porque tu és uma mulher encantadora. Deves dizer isto a si mesma, quando ele se desesperar. Um quase imperceptível movimento dos lábios de Isabel fez compreender a tia que esse conselho já fora posto em prática sem resultado animador. — O Antônio é bom demais. Ele não pode ver um amigo aflito que não lhe empreste logo tudo quanto tem no bolso. Devem-lhe uma fortuna. Tia Milú teve piedade da sobrinha, mas murmurou ainda: — E não vão pagar os empréstimos. Mas não te atormentes filha, que vocês ainda têm um grande recurso para se equilibrarem na vida até teu marido ter colocação condizente: esta casa. Aluguem isto, e vão morar noutra menor. — Que ideia! Isso seria a desmoralização, uma vergonha. Não há maior humilhação para um homem do que uma demonstração pública de penúria. Nunca! Tia Milú, que conhecia perfeitamente o coração da sua Isa, pensou ainda consigo: Bravo. Ela já tinha aventado a minha ideia e está a repetir-me agora palavras do marido… Talvez a tia tivesse razão, mas também talvez não tivesse. Se o instinto acerta muitas vezes, também em outras tem as suas desorientações. O caso é que nessa mesma tarde, quando Antônio voltou para o jantar e a mulher, que lhe contava tudo, repetiu os conselhos da Milú, ele desesperou-se. Não queria na sua vida intervenção de idiotas. O melhor seria afastar essa solteirona para longe. Que fosse amolar o Papa! Isabel calou-se, ressentida. VIII A Vera Landim. Janeiro, 1917 O seu silencio não me desnorteia, esmaga-me. Ele me faria amaldiçoá-la ou esquecê-la, se através da distância e da aparente indiferença, eu não sentisse o seu pensamento voltar-se para mim. Por que não há de ter a coragem de dizer a palavra que lhe arde no coração, como uma brasa viva num incenso? Começo a ter medo de mim. A obsessão do seu amor faz-me desprezar tudo mais e chegar a um grau tamanho de incompreensão, que às vezes eu mesmo não sei se a adoro ou se a detesto. Os seus olhos verdes vagam pela minha memória como dois vagalumes pela escuridão. Só os vejo a eles, tudo o mais desaparece na sombra. Se, para acordar-me da minha abstração torturante, alguém me chama com um grito a realidade, todo eu estremeço, como quem acorda de um sonho, e já tem pressa de voltar a dormir. Até onde me levará a sua imagem? Não posso adivinhar! Responda-me ao menos, Vera, a isto e isto simplesmente: qual o seu desejo? Dionísio. Vera a Dionísio. Fazenda do Cedro, Janeiro. Fazer-me esquecida. Vera. A Vera Landim. Fevereiro, 1917 A senhora não tem coragem de escrever cartas, porque tem medo de trair-se. No seu silencio não há vácuo, há uma multidão de coisas abafadas, sufocadas, enterradas, cuja palpitação eu sinto de longe. A sua vaidade de mulher não consentiria que o vento do esquecimento varresse as cinzas desta fogueira em que todo me consumo, e que é a maior que tem iluminado um coração de homem na Terra. Deus, e os deuses, querem ser adorados. A trama da existência de que é feita senão de amor? Fingir-se insensível, quando não seja para atear ainda mais labaredas de uma paixão como a minha, é dar ao maior esplendor da natureza uma expressão de fantasma. Para fantasmas, basta o que cada um de nós carrega consigo. A senhora tem um, eu tenho outro. Qual será mais pesado? Ambos podem ter o mesmo nome: Desilusão. Mas contra o seu, pode ser aplicada uma arma forte e decepadora, que é o desprezo; e contra o meu? Só a Piedade. Esta noite senti os seus dedos frios tateando o meu pescoço. Pensava ela talvez em estrangular-me… vendo-me acordar, disfarçou, sorriu, e depois desatou em pranto. É bom parar aqui. Dionísio. IX A pobre solteirona vivia como uma mosca numa teia, sem saber para que lado se mover, para não cair de todo nas garras da miséria. Mesmo assim, ainda era ela quem levava de tempos em tempos umas pobres florezinhas ao túmulo do cunhado, um pouco por gratidão, que só agora, que conhecia melhor o mundo, julgava dever-lhe. No fundo da sua consciência havia a convicção de que o que ele lhe dera não fora verdadeiramente dado, mas trocado, o que é diferente. Ele pagara-lhe a utilidade moral, com bom passadio e vestidos bonitos. Nem todos fazem assim. Há muitos que só dão restos, coisas usadas, em compensação de serviços idênticos: consideração, respeitabilidade, comodidade, economia, vigilância de mãe, noites mal dormidas, tudo o mais. A lição veio quando já a não podia aproveitar. Agora para que lhe serviriam os dez dedos, que nem valsas para os outros dançarem sabiam tocar? Para a afastarem de casa, sem rancor, tanto perceberam a injustiça da situação, os sobrinhos alegaram não ter compartimento para ela em sua nova residência e ofereceram-lhe em compensação uma mesada, que mal dava para pagar a sua pensãozinha modesta. Mas se tinha sido confiante e ingênua na mocidade, a tia Milú começava a sentir na adversidade todo o amargor da vida. O Antônio despenhava-se. O Abrunhedo afirmara-lhe que ele jogava como um louco. Assim, o pouco que deles recebia iria acabar em breve. O que restava a ela agora era com urgência procurar uma colocação. Qual? O que poderia ela fazer? O que saberia executar? O terror da responsabilidade arrefecia-a até os ossos. Que vergonha, se a repreendessem ou se rissem dela… que vergonha se a demitissem de qualquer emprego por não saber exercê-lo. Contudo, todas as manhãs lia com avidez os anúncios dos jornais, a procura de uma escravidão que a tornasse independente. Um dia comunicou as suas intenções a Isabel, com a esperança de que a sobrinha protestasse contra a ideia, assegurando-lhe a continuação da mesada e auxílio futuro. Mas não; Isa lembrou até que o melhor para ela seria ser enfermeira, e acrescentou: — Olhe, tia Milú, a mulher do Dionísio está doente. Seria uma boa casa… Hei de lhes falar disso. Tia Milú sorriu, agradecida, e limpou desesperadamente os vidros da luneta que embaçavam. E por que se embaçaram tanto, os vidros de luneta da tia Milú? X — Vai ser chique. Eu já assinei para a temporada francesa. O repertório deste ano é delicioso e o Brulé veste-se como um príncipe. É de apaixonar. Compreendo o desespero da Ester, que chegou a fazer-lhe uma declaração, tal qual como a mulher do Saraiva ao zarzuelista mexicano da Iris. A este até presenteou com uma pulseira de esmeraldas e brilhantes. — E uma carteira com monograma. Pois para mim, artistas só os franceses. Como finura então são inigualáveis. É uma verdadeira escola de elegância. — Para isso, minha amiga, nós não precisamos de figurinos. — Está claro que não. A Rejane espalhou que nunca viu em sua vida senhoras tão chiques como as que iam aqui assistir aos seus recitais. E nisso não mentiu. — Não. — Não! — Em noites de primeira, o nosso teatro é uma maravilha. Eu sempre digo: que me falte tudo, menos o automóvel e a assinatura para as temporadas do francês e do lírico. Mesmo que não fosse pelos atores, só para ver a sala, não se devia perder o espetáculo. Meu marido, que tem viajado muito, diz que em parte nenhuma há tantas joias lindas como aqui. — Nem na Argentina? — Nem em Paris. — Nem em Londres! — Eu adoro as safiras. — Não há nada como as pérolas. — Pois eu dou sempre preferência aos brilhantes. — O elenco do lírico é estupendo. Nem nós toleraríamos banalidades. Já gozamos a fama de ser a plateia mais exigente da América em questão de música. A primeira vez que os cantores entram em cena aqui, tremem de medo. — Alguns parecem conservar esse pavor até a última apresentação. — Já tenho assinatura. — Eu também. E você Isabel? Não, Isabel ainda não tinha. — Oh! — Que horror! Ao espanto das outras, ela explicou que já pedira ao Antônio. Tinha hesitado por causa do luto. Mas o marido ardia no desejo de ouvir boas óperas e bom dramático. Nem ele nem ela toleravam o nacional. — Certamente. Nem nenhuma de nós. — Quantos vestidos, hein? — Eu, seis. — Eu, sete. — Eu, dez. E você, quantos mandará fazer, Isabel? — Ainda não pensei nisso. — Mas é preciso pensar. Olhe, a Madame Lucienne dos Estrangeiros, trouxe coisas lindíssimas de Paris. Só a Ritinha reservou onze vestidos. Dizem que o marido não paga as contas e talvez por isso ela abuse; apesar de que as francesas não fiam… — De mais a mais, Isabel, você precisa aproveitar enquanto não vem algum bebê! — Parece-me que não terei filhos. Já estou casada há quase dois anos… — Isso não quer dizer nada; mas um filho sempre atrapalha. É melhor esperar para o verão. Eu sempre tive os meus no verão. Antônio surpreendeu a mulher e as amigas, assim palestrando num recanto do salão, onde uma luz coada por um abajur cor de ouro punha um círculo loiro sobre a maciez dos estofos e dos tapetes claros. O dia estava chuvoso e levemente frio. Tinham corrido as largas cortinas de seda sobre as janelas fechadas. Na extremidade do aposento, em um vão da janela em arco, a luz de uma outra lâmpada varava o cristal leitoso de um vaso Gallet entre galharias rendilhadas de avenca fina. Em cima do piano um ramo de cravos vermelhos de haste longa abria-se como um leque, cujas varetas fossem encimadas por uma grossa gota de sangue. Sangue pisado; sangue de sofrimento. Como os antigos escravos, ele disse da porta: — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! E entrou depois a beijar a mão das senhoras. — Sim, concordo com todas: assinarei para o lírico e para a temporada francesa. Já tinha mesmo incumbido disso um amigo. E, SS. Exs .? Vejo o piano fechado! Então a grande pianista Octavia Rentz nem ao menos descalçara as luvas? Octavia sorriu e respondeu, com intenção, à meia voz: — Chamar-me grande pianista quem ainda deve ter no ouvido a execução da Vera Landim? Essa sim, mereceria esse título. Ele fingiu não perceber a malícia, mas a evocação fez-lhe mal. Supunha bem morta no seu passado essa mulher, e eis que ao ouvir o nome dela, a imagem surgia de repente diante de si, em um nimbo de saudade. Isabel deu-lhe chá, que ele tomou calado, olhando abstratamente para o fundo da xícara. Como estes dias de humidade lhe faziam mal aos nervos! Octavia, que observava, perguntou-lhe depois de algum tempo: — Sempre quer que eu toque? — Quero — e foi abrir o piano. — Ao Luar. Fora também ao luar que num jardim rescendente de murtas e tuberosas que ele dissera pela primeira vez a Vera que a amava. Dos seus olhos verdes semicerrados, irradiava uma luz de um magnetismo mais poderoso que o da lua. As angélicas tremiam no seu perfume de virgens cálidas e toda a natureza parecia ansiar com ele pela resposta suplicada, quando as suas mãos nervosas se uniram numa cadeia tão viva e entrelaçada que nem a própria Morte deveria ter força para a quebrar algum dia. Ao luar a sua pele morena tinha um tom místico de magnólia ao desabrochar, e nos fios negros dos seus cabelos erravam reflexos azuis, movediços com asas de pequeninos beija-flores. Não era só a memória do coração que despertava nele; era também a de certas sensações físicas, como a dos seus dedos, que parecia conservarem ainda a impressão das mãos dela, macias, tremulas e frias; e a dos ouvidos, em que a sua voz ficará guardada para sempre. Ao luar… que noite aquela! E para traí-la, que bastou? Uma curta ausência numa granja, uma estação em Petrópolis, um dia de Carnaval e a fascinação do dinheiro, que se pulveriza e desaparece. A onda de luz azul transbordava das amplas harmonias da sonata, num desdobramento de constelações e poesia, em cujo fundo transparecia, latejante e interrogativa, a dolorida alma humana. Subitamente, Octavia interrompeu a música e se levantou. Antônio arrancou um dos cravos do ramo sobre o piano e ofereceu-lhe sem uma única palavra. Ela contemplou-o por um momento em silêncio, percebendo a sinceridade da emoção e julgou divisar nas suas pupilas enevoadas o vulto de Vera, que fugia… Precipitaram-se os adeuses. — Meu Deus, como é tarde! A gente aqui sente-se tão bem que se esquece das horas. E os maridinhos em casa a esperar. — E o meu se aborrece quando não me encontra ao chegar. — Vá ver-me às primeiras e às quartas terças-feiras de cada mês. — E eu às segundas. — E eu aos sábados; os primeiros e os terceiros. Mais apertos de mão, mais beijinhos, mais uma informação de última hora, de como se desfia a seda para efeitos de certas almofadas, e mais isto, e mais aquilo, até que o último automóvel se afasta do portão. Ao ficarem sós, Antônio puxou docemente a mulher para si e lhe dá um beijo: — Vou pedir-te um sacrifício, um pequenino sacrifício, meu bem. — Que é? — É isto. Olha: eu contava que um rapaz, que me deve aí uns dez contos, me pagasse ao menos metade da sua dívida, o que já me auxiliaria para as nossas assinaturas no Municipal; mas ele procurou-me hoje para me dizer que isso lhe é absolutamente impossível. Teve contratempos, imprevistos. Foi o diabo! Isabel fixava no marido um olhar meio espantado, meio interrogativo. — O esquisito é que a todos os outros que me devem, acontecem casos extraordinários. Ninguém pode pagar; de modo que, a não ser que o Vasco, o ministro que há dias te foi apresentado pela Silveirinha, me queira dar um dos cargos que ele criou agora, nós não poderemos ter nem assinaturas, nem coisa nenhuma. Isabel empalideceu. — O Dionísio pediu-me para entrar com ele numa grande negociata com uma empresa americana. Aceitei. Estamos só a espera de umas instruções de Nova York. Entretanto, não seria mau que eu fosse ocupar o tal cargo no ministério. Convém-me mesmo estar do lado de dentro, o que me facilitará depois qualquer manobra. Isto são minucias que não vêm ao caso: o principal agora é conseguir que o Vasco me dê o cargo, e para isso preciso de ti. — De mim? — Pois então, que melhor advogado poderei ter do que a minha mulherzinha? Os olhos de Isabel alargaram-se. — Eu nem sei como se fala com esses senhores. — Ainda outro dia conversaste com ele. — Bem; isso foi diferente. Na casa de uma amiga, como se conversa com qualquer outro homem… — Pois é sempre a mesma coisa! — Numa Secretaria?! — Pois então, o que é preciso é não perder tempo. Irás amanhã. Foi também o Dionísio quem me lembrou este lugar. Serve enquanto espero. Ainda havemos de ser riquíssimos, minha Isa! E então não teremos assinatura de duas simples poltronas, mas de uma frisa, em que a tua beleza resplandecerá. Sabes que tenho amigos. O próprio Dr. Jordão, o marido da Silveirinha, poderia falar a meu respeito ao Vasco; mas o pedido de uma senhora, e uma senhora como tu, tem sempre muito maior prestígio. É por isso que preciso que seja você a falar com ele. E agora vamos ao nosso jantarzinho, e depois, toca para um cinema! XI O drama, destilava sedução, escorria luxúria em ambientes de luxo. Marguerite Snow tinha nele maleabilidades de corpo e de sentimento ultramodernos e apresentava vestuários de fazerem inveja ao coração das mulheres. Havia de tudo na peça: beijos esmagados, traições, sorrisos, cenas de guerra e cenas de faroeste, impetuosas e brutais. No fim, o vício era castigado, repentinamente, só para a aparência de um desfecho; mas o que impressionava, o que sugeria, tivera exposição detalhada e atraente. Isabel começava a cansar-se dos automóveis que fogem e perseguem, das galopadas por montes e vales e das tavernas, onde mulheres devassas fumam, jogam, bebem e dançam, cercadas de bêbedos e punhais. Mais abstrata que de costume, ela pouca atenção prestou as primeiras cenas da fita projetada, até que o seu interesse se sentiu despertado por certas peculiaridades em que a sua boa vontade julgou sentir afinidades com o seu caso. Como tinha decorrido doce e plácida a sua vida de burguesa, em comparação das vidas bruscas e excitantes dessas protagonistas de relâmpago! Chegava a ter pena, e a tirar disfarçadamente o seu lencinho da bolsa para secar os olhos inundados. Bem sabia que tudo era mentira, tudo era especulação. Armadilhas para o dinheiro e nada mais, como o pai costumava dizer antigamente, quando à via enternecer-se nos espetáculos sentimentais. Pobre papai, também no fim, apesar de toda a sua experiencia, fora vítima de uma dessas emboscadas em que os beijos custam fios de pérolas e as palavras de amor são pagas com diamantes. Chegada a hora de querer gozar umas e outras, nem lhe passava sequer de leve pela cabeça que tudo era mentira e armadilhas para o seu ouro. E a pensar nesse ouro do papai, entre cujos montões fora criada e que se tinha desvanecido como o nevoeiro ao sol, Isabel sentiu a impressão de que alguma coisa dentro do seu peito tomava corpo e lhe pesava sobre o coração. Era o desgosto, um desgosto surdo, irremediável, de não ter sabido aproveitar a situação, de não ter sabido prever, de não ter sabido guardar. Se nos dias felizes ela tivesse pedido ao pai que lhe desse joias, que comprasse casas, que comprasse títulos e apólices para ela, teria agora com que adquirir nas francesas de dez a doze vestidos e resplandecer na sua frisa do Municipal. No tumulto dessas impressões, teve pela primeira vez numa certa e mal definida pena da tia Milú, que outrora andava farta e bem trajada, e agora batia perna sozinha pelas calçadas da sua rua. Mas por que fora tola a tia Milú? Por que não teria procurado a sua independência enquanto moça? Aí estava uma pergunta que ela ainda haveria de fazer. E fez, no dia seguinte; quando de passagem para a farmácia, onde ia comprar drogas a mando do Dionísio, a tia entrou na casa da sobrinha só para um adeusinho e um sorvo de consolação. Isabel, ainda com o peignoir matinal, polia as unhas no seu quarto de toilette. A tia sentou-se diante dela e explicou: — Passei pela tua porta e não quis deixar de entrar, para matar saudades. É um minuto de ilusão, porque não me posso demorar. A mulher do Dionísio está mal e também ele bem não está! Uma tristeza. — Continua com a morfina? — perguntou a sobrinha, sem interromper a ocupação com que se entretinha. — Pois então, cada vez pior. — Para onde lhe havia de dar. — Ao princípio julguei que fosse só ela; mas verifiquei há dias que ambos usam e em excesso. Realmente, eu me perguntava a mim mesma quem poderia levar àquela senhora tanta morfina, longe de imaginar que os fornecimentos pudessem ser trazidos para casa pelo próprio marido! — Quê? O Dionísio também? — Ele talvez mais do que a mulher. Tudo me leva a crer que foi ele próprio quem implantou esse vício no corpo. Como é forte, resiste; ela sucumbiu mais depressa. — Oh, tia Milú, mas isso que a senhora está dizendo é horrível! — Mas fica entre nós. Ontem, como eles se tivessem esquecido de fechar a porta do quarto, eu pensando que não tivesse ninguém dentro, entrei e me deparei com os dois, sentados um em frente do outro, com ar imbecilizado, a se picarem nos braços com a agulha. E apesar do barulho que fiz, nem deram por mim! Há noites em que a ele lhe dá para escrever e a ela para agitar-se pela casa como sonâmbula. Dela, ainda assim, tenho pena; dele não. Imagina que, sendo casado e amigo do Landim, ele faz declarações de amor à Vera! Que infame, hein? Querer seduzir a própria filha de uma pessoa que o recebia tão fraternalmente. Às vezes, pergunta-me, mesmo perto da mulher, querendo recompor uma imagem que já lhe foge da memória, quais as feições de Vera. Para desnorteá-lo, eu descrevo as feições completamente diferentes do que são na verdade, e ele fica absorto, nadando em dúvidas. Às vezes, ele e a mulher maltratam-se, esmurram-se, injuriam-se, dizem coisas horríveis; e quando se apartam, ficam a espreitar-se mutuamente, muito desconfiados. Confesso-te que só por muita necessidade me sujeito a viver ali. Chega a ser perigoso. — Mas, tia Milú, a culpa foi sua. — Como?! — Por que não procurou a sua independência, enquanto era moça? No silencio do espanto, o rosto da tia pareceu a sobrinha ter crescido desmedidamente. Depois, ela conseguiu falar, embora com a voz engasgada e quase incompreensível: — Fui uma idiota, fui; mas de que serve agora arrepender-me? Teu pai queria tua mãe só para si. Mal nasceste, encarregou-me logo de olhar por ti e pela casa, para poupá-la e poder levá-la consigo aos restaurantes e aos teatros. Foi um bom marido e Deus lhe fale na alma. Quando tua mãe morreu, fiquei ainda mais sobrecarregada e não pude pensar em mim, nem procurar fazer-me competente para ganhar a minha subsistência. Nem supus que isso me viesse a ser necessário um dia. Se eu tivesse previsto as consequências… Isabel concentrou-se, arrependida e humilhada. Via claramente agora quanto a vida daquela pobre senhora tinha sido sacrificada pelo egoísmo dos pais e pelo seu; mas como recompensá-la, se o marido, indiferente a essas gratidões de família, não a queria no seu lar? Contrariar Antônio, só por amor a tia Milú, também lhe parecia demais. Nem o Antônio era homem que admitisse oposições a sua vontade. Já agora então, o mais acertado seria deixar correr o marfim e fechar os olhos. Tia Milú levantou-se e despediu-se, com os olhos reluzindo e os lábios a tremer. Na rua, o sol ofuscou-a e tomou a direção errada. Foi só depois de ter andado uns trinta metros que percebeu o engano e torceu caminho, com um suspiro fundo. Na farmácia esqueceu-se do nome das drogas que ia comprar. Foi preciso interrogar pelo telefone o Dionísio, que as nomeou praguejando. Desde que se empregara, o Antônio tinha-lhe suprimido a pensão; e como o outro, esquecido da cabeça, não andava em dia com o ordenado, ela dava tratos a imaginação para atinar com o meio de fazer certas comprinhas modestas de coisas indispensáveis. *** Isabel vestia-se para ir falar ao Sr. Ministro, quando o marido foi procurá-la para a instruir detalhadamente sobre o assunto e o papel que ia representar. Tu lhe dirás isto: e explicava o seu discurso, fazendo ao mesmo tempo cair sobre ela a neblina de um pulverizador repleto de essência fina. — E se ele objetar… — Se ele objetar tu lhe dirás mais isto, e se ele apresentar tal ou tal opinião, tu as rebaterás deste ou daquele modo até deixá-lo convencido. Isa prestava uma atenção quase dolorosa, como as crianças quando querem aprender de cor o que se lhes diz. — Tenho medo. — Medo de que? Ora essa! E, com extrema delicadeza, ele tirou-lhe com uma pontinha da toalha um pouco de pó de arroz que estava acumulado perto de uma orelha. — Estou bem? — Estás linda, mas puxa o cabelo um pouco para a testa… assim! E leva joias. Não quero que ele pense que lhe pedes um emprego por necessidade. Tudo menos isso. Aos que têm necessidade, os ministros não dão nada. E o combinado já sabes: fingirás que partiu de ti a iniciativa de tudo, tanto que eu ignoro completamente a tua ida ao Ministério. Entendido? — Entendido. Ao calçar as luvas, já dentro do automóvel, Isa relembrou, insensivelmente, as atitudes de Marguerite Snow. Era a primeira vez que ela entrava em cena para representar um papel estudado: devia procurar modelo para as suas atitudes. E aquele parecia-lhe excelente. XII 15 de Setembro, 1917 A Vera Landim. Duas horas da noite, não posso dormir e agito-me sob o poder de uma força misteriosa que me impele para o ar livre. Abro a janela e contemplo o céu vasto e estrelado. Todo me invade um aroma intenso de nardos que não compreendo ao princípio onde estejam, até que do firmamento profundo vejo desdobrar-se, dentre as faixas brancas da Via-Láctea, uma visão vaporosa, que desce e flutua no espaço, quase indistinta. Prendem-se nela meus olhos; mal a distingo e logo a reconheço. É a tua alma, Vera, é o teu corpo astral que, liberto de tua linda carne adormecida, vem inclinar-se todo sobre o meu sofrimento. Oh doce, oh divina essência da mais amada escultura humana, que há na terra, que balsamo trouxeste a minha saudade. Não te rias, Vera, não te rias. Juro-te que assim foi. A paixão que te consagro deu uma tal acuidade ao meu espírito, que eu penetro no sentido e na razão de ser de toda a criação. Só depois que te amei compreendi o Universo. Foste a chave mágica dos segredos para todos os outros indecifráveis; tu és tudo e estás em tudo: sinto-te no ar que respiro, no astro que fito, na água em que ponho as mãos. Oh minha amada, de palavra dura e alma piedosa, recebe em ambas as mãos o meu coração magoado. Dionísio. De Vera a Dionisio. Setembro, 1917 Enganou-se. Na noite a que alude eu não dormi. Passei-a a velar um doente. Vera. XIII Foi com certo espanto que os amigos do Antônio leram um dia nos jornais que ele tinha sido nomeado para um dos mais cobiçados lugares da Secretaria do Vasco. Que padrinho político teria tido esse imbecil, perguntavam-se entre si, para conseguir uma situaçãozinha tão apetitosa? Afinal, qual era o valor do Antônio? Que dissessem, qual? Só o de ter bonitos fraques, andar de unhas lustrosas e ter sabido escolher mulher galante e rica. Dias depois, julgaram encontrar a explicação daquele caso imprevisto ao verem ocupando a mesma frisa no Municipal, o Antônio, a mulher e o Sr. Ministro Dr. Vasco de Andrade. Solteirão, rico, dado a elegâncias espetaculosas, este senhor, fosse onde fosse que se apresentasse, atraia sempre a atenção de toda a gente. Já a pena serviçal de um jornalista malicioso lhe conferira o título de Petrônio, sem que para isso ele tivesse tido o trabalho de escrever sobre usos nem costumes; e os cronistas das secções mundanas não se esqueciam jamais de se referirem a correção dos seus gestos, bem como a cor das suas casimiras. Assim, naquela noite, logo todos os binóculos se voltaram para a frisa em que ele apareceu, sem atinarem se ela pertencia a ele ou ao Antônio. Parecia de ambos; tanto à vontade se achavam os dois que ninguém perceberia qual seria o hóspede. Isabel resplandecia na maravilha de uma maquiagem inédita, toda polvilhada de diamantes; mas quem atentasse bem nos seus olhos e no seu sorriso, teria a impressão de que atrás deles flutuava a sombra de um segredo íntimo, muito pessoal, talvez amargo, talvez glorioso. E esse mistério, esse não sei quê de intáctil e subtil, a tornava mais mulher e mais interessante. Sem o imaginar, teve desde então o seu nome inscrito nos anais divertidos da maledicência. Muitas das pessoas que a tratavam cá fora em conversas irônicas por Senhora Ministra iam importuná-la na casa com súplicas de recomendações para o Sr. Dr. Vasco, todas cheias de atenções e amabilidades. E ela, bondosa, atendia a todos, servia a todos, comprometendo-se assim cada vez mais. Antônio gozava. Excitado pela onda grossa dos bons negócios que se avolumavam diante de si, mal percebia o traço de fel que se ia pouco a pouco acentuando nos lábios, antes sempre doces, da sua Isabel. Ela já não era aquela alma florida e alegre como uma roseira, que o perfumava com as suas caricias e expansões do seu sentimento. Por vezes como que a cobria toda um véu fino de cinzas vaporosas e ficava abstrata, com o olhar magoado, como quem vê desmanchar diante de si a imagem de beleza em que pusera antes toda a sua paixão e toda a sua fé. Cada vez que o marido voltava do Ministério, radiante por ter conseguido realizar este ou aquele grande empreendimento, ela calava-se, recolhendo-se a uma espécie de indignação instintiva, embora mal definida e dolorosa. No embevecimento da fortuna conquistada, e aquele orgulho de valor próprio que fazia agora inchar o peito de importância, Antônio começou a ter a sensação nítida da sua superioridade. Ele era o centro, o porquê, a razão de tudo. Fora graças a sua influência e ao seu conselho que o Vasco se tinha equilibrado com a pasta em tal ou tal emergência política; fora unicamente devido a sua intervenção perspicaz e patriótica que se pudera ter levado a bom fim uma certa questão de alta finança; e tudo quanto ele particularmente ganhara fora exclusivamente devido a sua esperteza e inteligência. A mulher sorria por dentro, agoniada por aquelas arrogâncias, mas prudentemente calada. Com o bolso cheio por transações rápidas, de êxito fantástico; com a sua vida definitivamente estabelecida, pensava agora o Antônio em sacudir-se do Vasco, de quem já não precisava e cujas assiduidades junto da mulher começavam a dar-lhe cuidado. XIV Vera. 1º Agosto, 1918 Esta noite, na sua ronda infatigável, minha mulher entrou nos meus aposentos e sentou-se diante do meu leito, a olhar para mim com olhos de brasa. Eu sonhava contigo: vagávamos num lago cor de violeta, tu rescendente a angélicas e mal enleada por um véu diáfano. Íamos – eu feliz, feliz… para onde o vento nos levasse; de certo, a um porto nunca antes atingido por nenhum mortal, quando senti o fantasma interpor-se entre a tua imagem e a minha exaltação. Ergui-me; lutamos num redemoinhar de feras bravas e enlouquecidas, até que o ruído dos nossos corpos em esbarrões e quedas, acudiu a enfermeira com o pessoal da casa. Ela saiu-me de entre os dedos, murcha, mole, quase moribunda. Voltou a si depois de muito socorrida. Eu atirei-me de novo para a cama no anseio de readormecer para sonhar contigo. Vê até onde me levou o amor que te tenho. Ingrata, ingrata, ingrata! Dionísio. De Vera a Dionísio. O senhor está doente. Deve consultar um médico e obedecer-lhe em tudo. Vera. XV No cristal do espelho, a que se estava arranjando, Isabel via toda a sua figura e a do marido, sentado no divã, por detrás dela. Conhecia-o muito bem para não perceber a raiva sopitada, com que ele ali estava mordiscando o charuto e a rufar com os dedos no marroquim do almofadão. Mais um alfinete para um lado, mais um puxãozinho para o outro, ela demorava os seus preparativos, dando tempo a que a trovoada rebentasse. Provocá-lo com uma pergunta, seria imprudente. Preferia que tudo que tivesse de vir viesse a seu tempo e por seu pé. Foi o marido que, já farto de ruminar em silencio toda a bílis da sua irritação, rompeu afinal por entre dentes, como a contragosto: — Estás a enfeitar-te tanto! Esperas hoje alguém? — Eu?… Não. — Ham. A voz do Antônio tinha a aspereza de pregos enferrujados e ele agora, já não contente de rufar com os dedos no almofadão, sacudia também a perna tão apressada e nervosamente que toda o vidro do toucador tilintava, ameaçando de cair no chão. — Então não esperas ninguém? — Não. — Nem o Vasco? E o Antônio envolveu esta pergunta num risinho azedo, que lhe tomou toda a face em rugas, ao mesmo tempo que arremessava o charuto pela janela afora. Já não precisava de disfarces, a bomba estava lançada. Isabel dominou-se e respondeu com o modo mais natural: — Bem sabes que esse vem todos os dias. — Bem sei, bem sei! Todos, todos os dias! A mim isso me parece demais. Bastou! Arre, bastou! Já não o posso tolerar nem quero tornar a vê-lo em minha casa! — Agora…?! — Retorquiu-lhe a mulher com ironia — Agora e sempre! — Mas, por quê? — Porque não quero que arrastem o meu nome pela lama das ruas, entendeste? Tu bem sabes por quê! As suas assiduidades nesta casa estão tomando um caráter de intimidade que me desagrada imensamente e podem ser comentadas lá fora de modo indecoroso para ambos. Eu não admito que isso suceda; eu não admito, ouviste? E a culpa tem sido tua, que lhe dás confiança. — Minha? — Sim, tua — Ora, Antônio! E ela ergueu levemente os ombros, com um muxoxo. — Não me faças perder a cabeça, não me faças perder a cabeça — repetiu ele, de punhos cerrados, apoplético e terrível. — Supus ter casado com uma mulher honesta e afinal… E fez um gesto de desprezo. — E afinal, acaba! — Que és tu? Diz! — Ah, pois ignoravas? Eu sou a isca. Eu fui a isca. E não tenho sido outra coisa desde que me conheceste, e deves saber disso muito melhor do que eu mesma, que não compreendi as coisas senão depois delas passadas e irremediáveis. — Cala-te. — Agora está dito. Serviu-te o meu dote; serviu-te a minha beleza. Estás rico, estás farto, não precisas de mais nada, podes zangar-te e defender a tua honra; mas a ingênua morreu e a outra mulher que existe dentro de mim, melhor é que não a provoques, para que te não diga verdades desagradáveis. Antônio levantou as mãos e cresceu para a mulher, lívido de raiva. — Bate — concluiu Isabel, sem se mover do lugar em que estava. Conteve-o a atitude arrogante e firme da mulher, que esperava o golpe toda trémula, mas a dominar-se num supremo esforço. Desmanchado o gesto, ele voltou-lhe as costas, saiu numa rebentina, batendo com a porta e foi fechar-se no seu escritório, enquanto Isabel se atirava, chorando, sobre o divã. Maldita a hora em que eu me casei, maldita a hora em que eu me casei… XVI Mal viu parar junto ao portão do jardim o habitual automóvel do Sr. Ministro, logo o jardineiro do Antônio correu a avisar a Sua Excelência de que os patrões não estavam em casa. E nem voltariam tão cedo. Nas palavras não havia malícia, mas nos seus olhinhos cor de café lampejavam reticencias expressivas e, tanto, que o Dr. Vasco, compreendendo a verdade, atirou para o fundo do carro o ramo de cravos que trazia na mão, e para a mão do jardineiro uma gorjeta de despedida. O outro titubeou, mas já ele indicava ao chofer outro endereço, e partia. Partia, sem perceber bem se com mágoa ou se com alívio. O desfecho estava mais ou menos previsto. Isa era uma linda mulher, mas o Antônio começava a aborrecê-lo soberanamente. Temia mesmo que o chegasse a comprometer, com a sua insaciável avidez de negócios lucrativos, de que andava sempre à caça. O que pedia aos céus era que Isabel se tivesse conformado com o despotismo do esposo e não se lembrasse de ir ao seu encontro com lágrimas e rogos. Estas coisas devem acabar de uma vez só. Um golpe: pronto. Vida nova! Essa noite entrou tarde em casa. Perguntou ao criado, que o esperava, se alguém o havia procurado e, ao receber resposta negativa, sentiu uma espécie de contrariedade. A sua vaidade ficara amarrotada pela indiferença daquela de quem se queria ver livre. — E carta? — Nenhuma. — Telefonema? — Também nenhum. — Pode se ir deitar. Eu vou ler. Mas não leu, e só pela madrugada conseguiu adormecer. Quando acordou, levaram-lhe a cama, com a correspondência matinal, uma carta de Isabel, dizendo partir com o marido para a sua fazenda da Serra, onde iria passar, pelo menos, um ano de castigo e saudades. Aquela carta era um ponto final no mais belo período da sua vida de mulher. Um adeus, mais uma lembrança, outro adeus… E Vasco dobrou a carta, com um grande suspiro de satisfação. Enfim, esse seu romance poderia ter acabado pior. *** Na manhã seguinte, Antônio arrebatava a mulher para a sua nova propriedade rural, onde se foi deixando ficar durante quinze longos meses de sossegado ócio, vendo germinar os campos de milho e feijão. Quando voltou ao Rio, o Vasco tinha deixado de ser ministro, casava-se com uma viuvinha e com ela partia para os Estados Unidos, numa comissão lucrativa. Com esse adorável epilogo, Antônio sentiu o horizonte alargar-se e iluminar-se diante de si, tanto mais que o preocupava todo a ideia de que seria pai dentro de poucas semanas. O bebê esperado enlaçara o coração arrefecido dos pais numa corrente de ternura. Tinham-se perdoado tudo; viviam dele, por ele, na esperança da sua graça, da sua perfeição, da sua beleza. Tudo o que ficará no passado estava bem enterrado; agora só olhavam para a frente, onde o vulto do filhinho lhes aparecia de diversos modos, em diversas idades. Foi quando a criancinha veio ao mundo e que Ihe deram o nome de Antônia Isabel, para que no próprio nome eles estivessem nela reunidos, que se lembraram da conveniência de chamarem para casa a tia Milú, cada vez mais menosprezada pelos Dionísios, intoxicados, transparentes, ferozes… Avisada, a tia correu a acudir a sobrinha. Voltava ao seu papel de utilidade na família; havia, afinal, para a sua subalternidade carinhosa, um quarto vago no palacete da rua Márquez de Abrantes. Assim, a pequenita passou a dormir junto ao seu leito, para que fosse ela quem Ihe mudasse as fraldinhas durante a noite e lhe desse a mamadeira, enquanto os pais, livres e sossegados, pudessem ir ao teatro, cinema e dormissem o resto da noite no seio do Senhor. XVII A Vera Landim. Novembro, 1919 Oh, deleite do sonho! Toda esta noite tive-te ao meu lado, na radiosa sedução de toda a tua mocidade. Saíste da envolvência de mistério em que te nimbavas, humanizaste-te piedosamente. As tuas mãos de neve deixavam-se queimar pela febre das minhas, e todo o teu corpo de virgem rebelde e casta enlanguescia ao afago do meu abraço amoroso. Enfim, enfim, mas porque mudava tão repentinamente de expressão o teu rosto? A ausência longa tinha me diluído na memória a exatidão dos teus traços. Fugias-me da lembrança. Qual é a cor dos teus olhos: esmeralda ou mel? Serão negros ou pardos? De tal modo as tuas pupilas se enchiam de doçura ou se carregavam de sombra, que tudo confundo já, tanto mais que o que eu adoro em ti, querida, amada minha, é mais do que a tua carne, a expressão de todo o teu ser original e perverso, é a tua maneira de amar, o ardor indómito da tua virgindade subjugada; os gestos das tuas mãos esguias e macias como a penugem dos cisnes; é o som da tua voz voluptuosa, o calor da tua pele cor de âmbar e o poder supremo da tua vontade dominadora. É isso tudo que te imaterializa e me embriaga como um perfume de flor venenosa, mas deliciosa. É o aroma do nardo consolidado em forma de mulher. E por isso, enquanto te espero, enchi de angélicas todo o meu escritório, todo o me quarto. Volta esta noite, sim? O fantasma da outra não virá desenlaçar os teus braços do meu pescoço, como nesta madrugada terrível. Ela não tornará a morder-me os braços e os dedos nem a expulsar-te de casa com a ira que lhe viste. Vem sem medo, eu a fecharei na sua alcova, a picarei muitas vezes com a agulha, vou amarrá-la com os lençóis ao seu próprio feito, para que não gire ao redor de mim nas suas rondas noturnas nem ameace enterrar-me nas costas o punhal que traz escondido na manga do roupão. Ela pensa que eu não sei, mas a velha enfermeira, tia do Antônio, antes de se ir embora, disse-me tudo; e ao fantasma também contou qualquer coisa, que a faz olhar para mim em busca do revólver. A tragedia está iminente; mas não tenhas medo, vem! Ela se debaterá em vão no seu cárcere, e eu poderei ajoelhar-me a teus pés, repousar a cabeça nos teus joelhos delicados, e fazer penetrar nas tuas veias o mesmo filtro que me faz enlouquecer e morrer, sonhando… Dionísio. *** A Dionísio. Outubro, 1920 Nem mais uma palavra. Caso-me amanhã. Vera.




