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Solo Virgem

Maria Firmina dos Reis

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CONHEÇA GRANDES AUTORAS DA LITERATURA FEMINISTA

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Ela era uma jovem inocente quando se casou por pressão da família com um homem adequado, de posses. Agora, já uma mulher mesmo poucos anos passados, ela retorna para uma conversa franca com sua mãe, uma discussão sobre o que significa ser mulher e o significado do casamento.

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Mary Chavelita Dunne Bright escreveu sempre sobre o pseudônimo de George Egerton. Australiana por nascimento, cresceu na Irlanda e chegou a morar em Nova York e no Reino Unido, onde morreu. Foi vanguardista da literatura modernista de língua inglesa e é uma das mais importantes autoras do movimento feminista, chegando a flertar com o movimento sufragista. Mesmo com a sua importância histórica, essa é a primeira obra da autora traduzida para o português.

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O noivo aguarda no corredor; com um pouco de impaciência, percorre o desenho do piso de linóleo com a ponta do guarda-chuva. Ele o guarda e ri, mostrando os dentes brancos e fortes após um comentário de seu padrinho; então compara as horas em seu relógio de bolso com o relógio da escada. Ele é exibido, tem olhos brilhantes e fala demais, tem inclinação para engordar, mas está em boa condição; o cabelo é áspero, encaracolado, ligeiramente grisalho; as orelhas são peculiares, pontudas na parte de cima, como as de um fauno. Ele é muito grande e bem-vestido, e, quando sorri, afável o suficiente. No andar de cima uma jovem, com os sóis de dezessete verões sobre seus cabelos castanhos, está deitada com o rosto escondido no ombro da mãe; ela chora com grandes soluços de criança, sem se importar com os olhos vermelhos e as lágrimas que já molharam a seda de seu vestido de viagem cinza. A mãe parece menos perturbada que a garota. É uma mulher frágil, com a pele pálida e delicada, cabelos castanhos finos e repartidos, olhos doces e uma voz estridente e monótona. Ela cora envergonhada com o esforço de dizer algo à garota, algo que se opõe a todos os instintos de sua vida. Ela tenta falar, abre a boca apenas para fechá-la novamente, e aperta os braços com mais força em volta dos ombros da garota; por fim consegue dizer, com pausas trêmulas e incertas: — Está casada agora, querida, e deve obedecer — enfatiza a palavra — seu marido em todas as coisas. Há… há coisas que deve saber…, mas… o casamento é uma coisa séria, sagrada — diz, com desesperança — deve acreditar que o que o seu marido diz está correto… deixá-lo guiá-la… dizer… Há um desespero tão forte em sua voz geralmente sem emoção que a garota levanta o olhar para examinar seu rosto – seu rosto corado, trêmulo e apagado. Seus olhos são assustados, castanho-claros como os da mãe, a pele também é delicadamente clara, mas a boca é mais firme, a mandíbula mais quadrada, e seu nariz interessante e irregular é cheio de personalidade. Ela tem o corpo pequeno, ainda não totalmente desenvolvido no viço de sua juventude. — O que eu não sei, mãe? O que é? — com uma impaciência ansiosa. — Há algo mais… senti nessas últimas semanas em seus olhares e nos dos outros… nos dele, na própria atmosfera…, mas porque não me contou antes que eu… Sua única resposta é a enxurrada de lágrimas desesperadas de sua mãe; uma batida breve na porta, e a voz do noivo, com um tom imperativo que lembra à garota que ela não está acostumada a isso, e a faz se segurar à mãe em um abraço muito, muito apertado, tirar o véu e ir até ele. Ela aperta as mãos do padrinho, beija a amiga que serviu de dama de honra – o casamento foi bem pequeno – e entra na carruagem. A cozinheira irlandesa abre a porta lateral e joga um sapato velho neles, que acerta o tronco de um sabugueiro e cai na estrada, o que faz a boa mulher se benzer e murmurar sobre maus presságios e azar vindouros; pois não tinha uma gralha cruzado seu caminho pela manhã quando foi abrir o portão, e não tinha sido uma mulher ruiva a primeira criatura em que colocara os olhos quando olhara para a estrada? Meia hora depois, a carruagem chega à pequena estação e a garota desce primeiro; ela está corada, e seus olhos estão perdidos como os olhos de uma criança assustada; ela começa a estremecer da cabeça aos pés. Ela torce e destorce as mãos delicadas, em luvas cinza, com tanta força que arrebenta a costura de uma delas. Eles entram na sala de descanso juntos, e ele chamara o chefe da estação, que aparece na porta, e, chamando um carregador, lhe dá uma ordem. Ela olha bem para a cidadezinha tão familiar. Moravam ali havia três anos, e mesmo assim ela parece vê-la pela primeira vez; a chuva pinga e pinga monotonamente no telhado de zinco, o cheiro da terra é fresco, e as flores rosadas da calçada se derrubam pelo cascalho. Então chega o trem, com um vagão de primeira classe marcado “recém-casados”; e ele vem buscá-la; seu hálito quente cheira a champagne, e ela percebe que os olhos dele são assustadoramente grandes e brilhantes; ele lhe oferece o braço com um ar tão curiosamente divertido de propriedade que a garota estremece ao colocar a mão nele. O sino toca, o guarda tranca a porta, o trem parte, e quando passa da cabine de controle, uma mão grande e bem cuidada, com um anel de sinete no dedo mindinho, fecha a cortina da janela do vagão ocupado. Cinco anos depois, em uma tarde de outono, quando a chuva respinga como lágrimas nos corrimões e o cheiro da terra molhada sobe pelo ar ameno com frescor e os crisântemos brancos lutam para levantar a cabeça do caminho de terra onde a chuva os derrubou, a mesma mulher, pois não há mais traços da menina em seus vinte e dois anos, desce de um vagão de primeira-classe; ela carrega uma mala. Ela anda com a cabeça baixa e os ombros caídos; seus passos rápidos se devem à pressa nervosa e não à sua condição física. Quando chega à curva na estrada, ela pausa e olha para a pequena casa de campo, com as cortinas brancas e belas floreiras de azulejos coloridos. De onde está, ela consegue ver a janela de seu antigo quarto; distinguir cada tom das folhas mudando na trepadeira que sobe pela parede ao sul; ouvir as notas agudas do canário. Nunca retornara à casinha pacífica com ar de nobreza desde aquela manhã fatídica quando foi embora com ele; ela sempre inventava desculpas. Agora, ao olhá-la, um sentimento de remorso preenche seu coração, e ela pensa na mãe vivendo seus anos quietos, cada dia uma réplica do anterior, e sua vontade enfraquece. Se sente inclinada a voltar, mas o sol poente brilha na vidraça da janela do quarto que ocupava quando menina. Ela se lembra de como, nas manhãs de verão, corria para abrir a janela e se inclinar para fora para deixar entrar o frescor do orvalho e dar boas-vindas ao dia, como se levantava em noites de luar e dançava com os pés descalços e brancos nos raios de lua, e deixava a imaginação correr solta pela noite prateada, sonhos de uma jovem menina sobre o mundo belo e maravilhoso que havia lá fora. Um soluço seco entala em sua garganta com a memória, e a efémera expressão suave em seu rosto muda para uma desilusão amarga. Ela se apressa, com os olhos abaixados, pelo caminho de cascalho bem cuidado, através da porta aberta até a sala de estar familiar. O piano está aberto com um hinário na banqueta; a grade está cheia de samambaias frescas e verdes, um vaso de rosas que desabrocharam tarde perfuma o cômodo do centro da mesa. A mãe está sentada em sua poltrona com as mãos cruzadas sobre o grande gato persa branco em seu colo; profundamente adormecida. Algum trabalho de renda fútil, o dedal e uma tesoura brilhante estão em uma mesa perto dela. Seu rosto é plácido, nem um segundo mais velho do que aquele dia cinco anos atrás. Seu cabelo não está mais grisalho, sua pele está limpa, ela sorri enquanto dorme. O sorriso acorda uma fúria repentina no peito da mulher que nota cada detalhe do cômodo, de pé ao lado da porta em sua capa de viagem empoeirada. Ela afasta o véu e se olha no espelho sobre a cômoda polida – se analisa sem piedade. Sua pele está pálida, com a cor amarelada de uma pele clara que não está saudável, e a franja de seu cabelo castanho está tão sem brilho que não faz nenhum contraste. O olhar de timidez de corça sumiu de seus olhos, eles queimam, sombrios, de ressentimento em suas órbitas fundas, a boca parece descontente; e o ar geral de seu rosto é de uma desilusão cínica. Ela olha de si mesma para o reflexo de sua mãe, e, virando-se rapidamente com uma exclamação reprimida, vai até ela, e, sacudindo a mulher adormecida sem muita gentileza, diz: — Mãe, acorde, quero falar com a senhora! A mãe acorda com os olhos assustados, encara a outra mulher como se duvidasse da evidência de sua visão, sorri, e então, acanhada por não receber resposta da outra, fica séria novamente, e a olha desamparada, finalmente se debulhando em lágrimas com um: — Flo, minha querida, Flo, é você mesma? A garota sacode a cabeça impacientemente, e diz, seca: — É evidente que sim. Vou partir em uma longa jornada. Tenho algo a lhe dizer antes de começar! Por que diabos está chorando? Há um tom de admiração surpresa em sua voz, misturado com impaciência. A mulher mais velha já teve tempo de examinar seu rosto e a maternidade adormecida nela é acordada pela agonia cansada. Ela está doente, pensa, com problemas. Ela se levanta; e pela característica dos hábitos de sua vida, com seu apreço estudado pelo cumprimento do que é apropriado, e desconfiança dos criados em geral, fecha a porta com cuidado. Essa mulher taciturna, de olhos fundos, é tão diferente da jovem que saiu dessa casa cinco anos atrás que ela sente medo. Com o egoísmo silencioso que caracterizou sua vida, ela aceitara as desculpas que sua filha havia dado para evitar retornar à casa; como também aceitara os presentes que o genro mandava de vez em quando. Havia encontrado para a filha um marido próspero nos bens do mundo, e aí sua responsabilidade terminara. Ela se aproxima, hesitante; sente que deveria beijá-la, há algo estranho em um encontro assim depois de uma ausência tão longa, e isso a choca, é tão diferente de como imaginara. Ansiava por isso com frequência, ver os vestidos novos de Flo, ouvir sobre sua vida na cidade. — Não quer guardar suas coisas? Gostaria de ir para o seu quarto? Ela pode ouvir o tremor na própria voz; é realmente falta de consideração de Flo tratá-la dessa maneira estranha. — Vamos tomar chá — acrescenta. Sua cor vai e volta, a renda em seu pulso se agita. A filha a observa com uma satisfação vazia, tirando os grampos do chapéu com cuidado. Ela percebe um retrato em uma moldura de veludo em cima da lareira; vai até ele e o observa com atenção. É seu pai, o pai que havia sido morto na Índia em uma batalha em uma colina quando ela era uma mocinha que mal chegava aos joelhos dele. Ela o estuda com novos olhos, tentando ler que homem ele era, que alma ele tinha, que parte dele está nela, tenta se encontrar ao observá-lo. Algo em seu rosto a emociona, atinge alguma nota em seu interior, e ela range os dentes para o pensamento que lhe ocorre. — Ela deve estar doente, deve estar muito doente — diz a mãe, a observando. — E pensar que eu não ousei me oferecer para beijar minha própria filha! — Ela nota as lágrimas que teimam em surgir, sentindo que pode ofender essa mulher que é tão estranhamente diferente da garota que a deixou. A mulher termina seu escrutínio do retrato, e olha para ela com um ar frio de crítica enquanto se volta para a porta, dizendo: — Gostaria mesmo de tomar chá. Vou subir e lavar a poeira. Meia hora depois, as duas mulheres estão sentadas uma de frente para a outra no cômodo elegante. A mais jovem está inclinada para trás na cadeira observando a mãe servir o chá, seguindo os movimentos graciosos das mãos brancas com veias azuis por entre os utensílios do chá – ela se deixa ser servida. Elas não falaram nada além dos comentários comuns sobre o calor, a poeira e a viagem. — Como está Philip, bem? — tenta perguntar a mãe, temendo a resposta, mas sentindo que é necessário questionar sobre ele. — Está muito bem, homens desse tipo geralmente ficam bem; devo dizer que ele está particularmente ótimo agora, acaba de ir para Paris com uma garota do Alhambra! A mulher mais velha cora de vergonha, pausa com a xícara a caminho dos lábios e deixa o chá escorrer sem parar para seu delicado avental de seda. — Está derramando o chá — acrescenta a garota, com um sorriso malicioso. A mulher suspira: — Flo, mas Flo, minha querida, isso é terrível! O que o seu pobre pai diria? Não é surpresa que pareça tão doente, querida, que absurdo! Devo pedir ao vigário para… para repreendê-lo? — Minha querida mãe, que ideia extraordinária! Essas viagens têm sido meu único consolo. Garanto que sempre as considerei como adoráveis oásis no deserto do matrimônio, paradas para descanso na jornada. Meu único arrependimento era a infrequência delas. O chá está muito bom, suponho que seja o creme. A mulher mais velha coloca a xícara na bandeja e a encara com os olhos assustados e as bochechas pálidas. — Temo que não tenha entendido, Florence. Sou antiquada — diz, com um ar de propriedade frígida. — Sempre pensei no matrimônio como algo sagrado. É terrível vê-la falar assim; deveria ter tentado salvar Philip de… um pecado tão chocante. A garota ri, e a mulher estremece ao ouvi-la. Ela lamenta: — Nunca teria pensado isso de Philip. Minha querida, deve estar muito infeliz. — Muito — diz a filha, com um sorriso sinistro — mas agora acabou, já estou farta e não vou voltar. Se uma bomba tivesse explodido no belo cômodo silencioso, o efeito teria sido menos surpreendente do que ouvir essa declaração quase animada. Uma grande abelha zumbe e bate na renda do chapéu da mulher mais velha e ela nem presta atenção, e então quase grita: — Florence, Florence, minha querida, não pode dizer que vai abandonar seu marido! Oh, pense na desgraça, no escândalo, no que as pessoas dirão, no… — ela estremece, incerta, — no pecado. Você fez um voto solene, sabe, e agora irá quebrá-lo. — Minha querida mãe, a cerimônia não teve significado para mim, eu simplesmente não sabia no que estava assinando meu nome, ou o que estava jurando fazer. Poderia muito bem ter assinado meu nome num documento redigido em outra língua. Não tenho remorso, minha consciência está limpa sobre o passo que estou dando; minha vida deve ser minha. Dizem que a tristeza nos torna puros. Eu não acredito. Nos torna duros, amargos. A alegria é como o sol, atrai tudo o que há de mais adorável e doce na natureza humana.[cvd1.1] Não, eu não vou voltar. A mulher mais velha chora, torce as mãos desesperadamente: — Não consigo entender. Você deve estar muito infeliz para cogitar dar um passo tão sério. — Como disse, estou. É um defeito em meu temperamento. Quantas mulheres realmente levam o homem mais próximo a elas tão a sério quanto eu? Poucas, acho. Elas evitam, bajulam, adulam, persuadem, mas não há verdade. Não podia fazer isso, veja bem, então fiz o possível. Não as culpo; há de ser assim enquanto o casamento for baseado em termos desiguais, enquanto o homem exigir da esposa como direito o que ele tem que conquistar da amante como favor até o momento em que o casamento se torna, para muitas mulheres, uma prostituição legal, uma degradação noturna, um jugo odioso sob o qual envelhecem, meras parideiras de filhos concebidos por um senso de dever, não amor. Elas os carregam, os parem, os amamentam, e começam novamente sem escolha, ficando velhas, desagradáveis, com toda a alegria da vida engolida pelo peso sem sentido da maternidade compulsória, até que seu amor, presumindo que tenham começado com ele, o mistério, a glória coroada de suas vidas, é transformado em uma obrigação que executam com desagrado em vez de um favor garantido a um marido que deve se tornar um novo amante para obtê-lo. — Mas os homens são diferentes, Florence; não se deve recusar o marido, pode fazer com que ele peque. — Tolice, mãe, ele é responsável pelos próprios pecados, não somos as guardiãs da moralidade alheia.[MN2.1] O homem é o que fizemos dele, seus próprios defeitos são culpa nossa. Nenhuma esposa é obrigada a colocar de lado as demandas de sua alma individual pelo bem de uma obediência cega. Vou tomar mais um pouco de chá. A mãe só consegue choramingar: — É terrível! Achei que ele daria um excelente marido, possui uma ótima posição social e tantos bons contatos. — Sim, e é bom culpar a quem merece. Philip é como Deus o fez, ele é um animal com paixões fortes, e se beneficia da liberdade permitida a ele pelas leis da sociedade. Qualquer culpa, qualquer pecado, qualquer infelicidade que haja nessa questão toda, a culpa é total e inteiramente sua, mãe — a mulher se senta reta — e de mais ninguém. É por isso que vim aqui, para lhe dizer o que… prometi a mim mesma várias vezes que diria. A culpa é sua, e somente sua, por sua mentira. Há um descontentamento tão frio em sua voz que a outra mulher se encolhe e choraminga lamentavelmente: — Deve estar doente, Florence, para dizer coisas tão cruéis. O que eu fiz? Com certeza devotei meu tempo a você desde que era pequena. Eu recusei — ela dá batidinhas nos olhos com o lenço — tantas boas ofertas. Havia o jovem Fortescue na artilharia, um homem tão bonito e cavaleiro tão elegante, estava bem apaixonado por mim; e Jones, com certeza ele tinha negócios, mas era bem atencioso. Todos diziam que eu era uma mãe devotada, não consigo entender o que quer dizer, eu... Um sorriso de divertimento cínico a interrompe. — Talvez não. Sente-se e eu explico. — Ela afasta a mão trêmula, pois a mãe se levantou e está de pé ao seu lado, a empurra até uma cadeira, e dá voltas pelo cômodo. Está assustadoramente magra, e arrasta os membros ao andar. — Digo que é sua culpa, pois me criou uma tola, uma idiota, ignorante de tudo o que deveria saber, tudo o que se relacionava a mim e à vida que eu estava destinada a ter no casamento; minhas necessidades físicas, o desabrochar da minha paixão, o próprio significado do meu sexo, minha condição de esposa, e a maternidade que seguiria. Não me deu uma única arma para me defender contra possíveis ataques de homens em seu pior. Me enviou para lutar a maior batalha da vida de uma mulher, na qual ela deveria saber todas as regras, com uma venda branca — ela ri, com desprezo — de pureza virginal como escudo. Seus olhos queimam, e a mulher na cadeira a observa como um sapo observa uma cobra ao cair em suas garras. — Eu tinha catorze anos quando deixei de acreditar na teoria da cegonha como origem da vida; e chorei até passar mal de vergonha quando aprendi o significado da maternidade, em vez de acordar com um sentimento de maravilha deliciosa sobre esse grande mistério. A senhora me deu para um homem, e não só me disse para obedecê-lo, para acreditar que o que ele dizia era certo, seria meu trabalho, sabendo que o significado do casamento era um livro fechado para mim, que eu não fazia ideia de verdade do significado da união com um homem. Me entregou de corpo e alma nas mãos dele sem me preparar de forma alguma para a provação que eu estava prestes a passar. Me vendeu por uma casa, por roupas, por comida; se aproveitou da minha ignorância, não vou dizer inocência, isso é diferente. Me disse, a senhora e sua irmã, e sua amiga, esposa do vigário, que teria uma preocupação a menos se eu me estabelecesse com conforto. — É cruel de sua parte dizer coisas tão terríveis! — lamenta a mãe — E ainda por cima — prossegue com um toque de austeridade — casou-se com ele de bom grado, parecia gostar das atenções dele! — Que mulher! É completamente uma mulher, mãe! A velha gatinha com uma garra escondida na pata. Sim, casei-me com ele de bom grado; não tinha nem dezoito anos, não conhecia os homens. Estava feliz pois a senhora estava feliz, e, como disse, gostava das atenções dele. Ele teve tato o suficiente para não me assustar, e eu não tinha a menor ideia do que me casar com ele significaria. Eu achava — ela ri — que as palavras do pastor finalizavam a situação. Acha que se eu soubesse o quão assustadoramente próxima a intimidade com ele seria, que toda a minha alma não teria se levantado em revolta, toda a mulher em mim lutado contra tal degradação de mim mesma? — Suas palavras tremem de emoção, e a mulher que a criou se sente como se estivesse sendo açoitada por um chicote. — Eu não teria estremecido ao pensar nele em tal relacionamento? E esperado e esperado até achar o homem que me satisfaria, de corpo e alma, a quem eu teria ido sem falsa modéstia, em quem eu pensaria com felicidade como o pai de uma futura criança, por quem o fogo quente do amor, ou paixão, chame como quiser, em meu coração teria queimado com clareza e me salvado do sentimento de desprezo e horror que tornou minha vida de casada um pesadelo para mim… ah, que me fez uma assassina em meu coração várias vezes. Não é exagero. Isso matou a doçura em mim, os pensamentos puros sobre a feminilidade… me fez odiar a mim mesma, e à senhora. Chore, mãe, se quiser. Não sabe o quanto tem motivos para chorar… Eu já chorei até não ter mais lágrimas. Chore pela garota que matou — diz a jovem com fervor. — Por que não me estrangulou quando era bebê? Teria sido uma bondade. Minha vida tem sido um inferno, mãe. Senti vagamente enquanto esperava na plataforma, lembro do impulso louco de me jogar debaixo do trem quando ele chegou, para escapar do pavor que congelava minha alma. O que foram esses anos? Um longo calvário, uma longa submissão aos desejos do homem ao qual eu me atei por ignorância do que significaria. Cada carinho… — lágrimas escorrem — foi somente a primeira nota disso. Olhe para mim — ela estende os braços. — Veja esta ruína do meu corpo. Eu não ousaria mostrar o coração e alma que tenho por baixo. Ele está no seu direito, mas acha mesmo que se eu soubesse, que teria prometido tal obediência insana por um senso de dever errôneo, que chegaria a isso? Eu também tenho meus direitos, e um dever a mim mesma. Se ao menos tivesse reconhecido na época. “Pode soluçar, mãe. Não sinto nem pena da senhora. Me machuquei demais para sentir pena do que será apenas uma pequena cicatriz para a senhora. Eu tenho um longo futuro a enfrentar com o mundo todo contra mim. Nada me obrigará a voltar. Prefiro qualquer coisa a isso. Roupas e comida são pobres equivalentes para o que eu tive que sofrer… Posso comprá-las mais baratas. Quando ele vier me procurar, lhe entregue a carta. Ele dirá que tem sido um marido dedicado, e que a senhora me criou uma tola. Pode dizer a ele também, se quiser, que eu o desprezo, estremeço ao toque de seus lábios, seu hálito. Que meu corpo inteiro se revolta ao seu toque; que quando ele se virava para dormir, eu o observava com um ódio tão grande e às vezes a tentação de matá-lo era tão forte que eu saía da cama e andava pela passagem fria com os pés descalços até ficar entorpecida demais para sentir qualquer coisa. Que eu contava as horas até ele ir embora, e gritava de alegria ao ver sua carruagem se afastando!” — Você é dura demais, Flo. Que o Senhor amoleça seu coração! Talvez — diz ela, trêmula — se tivesse tido um filho. — Dele? Isso teria sido a última gota. Não, mãe. Ela tem uma expressão tão peculiar de satisfação sobre algo – algum entendimento interior, como um homem tem quando reflete sobre uma conquista de sucesso de um propósito secreto – que a mãe soluça em silêncio, torcendo as mãos. — Eu não sabia, Flo, fiz o meu melhor. Está sendo muito dura comigo!

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